quarta-feira, 21 de outubro de 2015

.: "Estado de Euforia", um conto de Helder Miranda

Por Helder Miranda
Em outubro de 2015

Certa vez, ele disse a uma amiga que entendo o que é sentir dor. Mas disse de maneira pouco convincente, porque nunca gostou de drama ou nada que tornasse os outros muito atentos ao que estava sentindo. De alguma maneira,  sempre foi o sensato, o equilibrado, aquele que não tinha problemas.

Não deveria ser assim, e ele sabia disso, mas o que incomoda nele era justamente esse estado de euforia em que estava, e ficava, às vezes, porque sabia que no dia seguinte era só vazio. Porque pensava que talvez existisse mesmo essa ressaca pós-felicidade exacerbada, desmedida, louca como ele. Ou se essa tristeza absoluta e abandonada seria sempre parte apenas do seu ser.

Deveria pensar que as pessoas eram felizes e ponto, sem muita reflexão, e ficavam tristes sem muito drama. Ele, não. E desde pequeno sempre foi assim. Não titubeava em trocar a felicidade dele pela de qualquer pessoa que estivesse necessitando. Como daquela vez em que assumiu a culpa pelo amigo gordinho que estava com fome e roubou o dinheiro para comprar um salgado na cantina. Diante do menino que chorava com medo de apanhar em casa assumiu a culpa e depois contou para a mãe, que chorou por ele e pediu que compreendesse que ser bom era diferente de ser bobo dos outros. Anos depois, muitos, encontrou aquele gordinho, muito maior, e não foi lembrado por ele. Era a versão masculina da Geni buarqueana, muitas vezes mal interpretado.

Gostaria de não sofrer tanto pelas dores do mundo, pelas dele, pela dos outros, porque era um poço sem fundo de culpas e sentimentos. Tudo o abalava tudo o fortalecia: "Oscilações", ele disse, enquanto fitava o estilete diante do espelho.

Sangue, depois de um dia de intensa felicidade sem um motivo aparente, tomado por uma sentimento de inadequação, de timidez exacerbada, de medos de coisas ruins que poderiam hipoteticamente acontecer e só não seriam concretizados se ele fizer alguma coisa para romper essa sequência de tragédias possíveis em sua mente.

Ser enterrado vivo ou soterrado, ter a cabeça esmagada por um ônibus, ser partido ao meio por um poste, levar um tiro na testa, ser eletrocutado por um fio elétrico de alta tensão, ser esfaqueado no estômago por um desconhecido que passa a seu lado, cair de uma montanha russa em um carrinho descarrilado, perder uma das pernas, ficar tetraplégico, ter algum familiar assassinado... Tudo o apavorava, porque sentia que coisas ruins podem ocorrer a qualquer momento.

E para evitar isso, desligava a televisão no exato momento em que uma palavra boa fosse dita, sairia do banho se o número de minutos debaixo do chuveiro forem pares, iria dormir se um carro de determinada cor passasse na rua. E às vezes lidar com esse turbilhão de coisas, quando a vida parece não dar trégua, soava um pouco mais complicado para ele.

O jeito era aproveitar a euforia, enquanto fazia a barba com o estilete e tirou de si um filete de sangue. Considerou até divertido aquele vermelho colorindo o branco de sua pele. Mas naquele dia, especialmente, estava conectado com uma espécie de "duende interior", muito mais carismático, carinhoso, sorridente, gentil e otimista com todos e com a vida que segue. Porque sempre vem o dia seguinte, ainda bem, enquanto estivesse vivo. Mas o dia seguinte chegou, e ele estava bem, assim como um dia depois e outro. Então, teve de se habituar com a felicidade.
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