sexta-feira, 2 de outubro de 2015

.: Gerard Gambus, um francês bem brasileiro, por Luiz Gomes Otero

Por Luiz Gomes Otero
Em outubro de 2015

No início dos anos 70, Gerard Gambus já tinha um currículo respeitável como músico e arranjador na França. Mas acabou realizando um sonho ao ser convidado pelo renomado maestro Paul Mauriat para integrar a famosa orquestra que percorria o mundo encantando das plateias. 



Logo se tornou diretor musical e braço direito do veterano maestro e mentor. Ambos tinham uma profunda admiração pela música brasileira, que originou o projeto "Exclusivamente Brasil", de três álbuns gravados com participação de músicos brasileiros. 

Uma feliz iniciativa, que também acabou resultando na união com a atual esposa, Evinha. Hoje em dia, Gerard atua como arranjador do Trio Esperança, que Evinha formou com as irmãs, Regina e Mariza, excursionando por vários países. Mas nunca esqueceu o período em que trabalhou com a famosa orquestra do amigo e ídolo, Paul Mauriat. Confira a entrevista especial que Gerard concedeu para o Resenhando.com.


Como surgiu a oportunidade de integrar a famosa orquestra de Paul Mauriat?
Um belo dia, em 1971, recebi um telefonema de Paul me perguntando se eu gostaria de trabalhar com ele, no início como assistente, e como parceiro mais tarde.  Acabei me tornando diretor musical da orquestra. Já tinha trabalhado com Paul anteriormente, mas como pianista da cantora Mireille Mathieu.

Antes de fazer parte da orquestra, você já trabalhava como arranjador de estúdio? Com quem você já havia trabalhado anteriormente?
Trabalhei com Christian Gaubert (arranjador dos filmes de Claude Lelouch), com Ivan Julien, François Rauber (arranjador de Jacques Brel), Raymond Lefebvre e muitos outros.


Como era o trabalho de direção musical da orquestra? O arranjo de cordas apresentavam diferencial em relação a outras orquestras da época?
É difícil responder a essa pergunta, pois meu trabalho era múltiplo. Primeiramente era de escolher as músicas que nós deveríamos gravar, claro que Paul deveria me dar um ok (ou não) antes de continuar. Nós escolhíamos quem ia fazer os arranjos. Nas gravações, nós dois regíamos a orquestra, dependendo de quem tinha feito o arranjo. O mesmo para as mixagens. O Paul sempre escreveu as partituras de cordas de um jeito diferente dos outros arranjadores, sempre foi escrito mais ritmado, o que é em geral o ponto fraco dos violinistas. Com a minha chegada, insisti ainda mais neste ponto.


Como Paul Mauriat contribuiu para sua formação musical? Fale um pouco sobre o maestro.
Eu tinha estudado piano e harmonia no conservatório, mas foi Paul que realmente me mostrou como escrever as cordas e aprendi bastante com ele. Uma vez, nós tínhamos algumas canções natalinas à gravar para o mercado alemão. Foi uma experiência muito interessante para mim, pois nunca tinha escrito naquele estilo. Ele me ensinou com muita paciência como fazer “soar” a orquestra no estilo de Natal. Paul era uma pessoa exigente e não gostava de um trabalho imperfeito, por isso ele sempre trabalhou com os melhores músicos, que aliás, ficavam tensos simplesmente pela ideia de gravar com ele. Comigo, ele era igualmente exigente, porém, paternal.


Marcou muito a fase dos anos 70 da orquestra, com os álbuns dedicados ao Brasil. Exclusivamente Brasil. Como foi essa experiência com a nossa música popular?
Paul, que adorava a música brasileira, teve a ideia de gravar algumas canções da MPB em Paris. Ele não ficou totalmente satisfeito do resultado (ritmicamente) pois faltava a alma brasileira. Um dia ele me falou “Vamos gravar um álbum lá no Brasil só de músicas brasileiras?”. Assim nasceu o disco que mudou minha vida!!! Que proporcionou o encontro com minha esposa (a cantora Evinha).

Você teve várias composições próprias gravadas pela orquestra. Qual foi a gravação mais marcante na sua opinião?
Eu não me lembro exatamente quantas composições próprias eu gravei com Paul (certamente mais de 30), e todas foram momentos emocionantes! Ouvir suas músicas interpretadas por “A Grande Orquestra de Paul Mauriat” é um privilégio. Uma entre elas me marcou mais: “Alone”. Talvez seja a única música que Paul gravou sem cordas. Eu insisti muito para gravarmos essa música desse jeito, só com sintetizadores, sem violinos. Ele não queria, mas finalmente aceitou. Essa música foi escolhida para ser a trilha sonora de um filme japonês.

Você chegou a lançar discos autorais instrumentais, mesmo integrando a orquestra? Fale sobre essa sua produção musical paralela.
Gravei um só disco solo. Um dia ousei falar com Paul sobre minha vontade de fazer um disco meu, e ele topou na hora. Ele acompanhou todas as gravações e mixagens, foi uma experiência muito legal!


Ao sair da orquestra, você passou a desenvolver outros projetos, inclusive com a esposa, Evinha, e o grupo Trio Esperança. Explique como esses projetos se desenvolvem nos dias de hoje.
Sai da orquestra em 1983 e me tornei professor em uma escola famosa de música em Paris durante sete anos, depois fui maestro de um cantor francês, Patrick Bruel, durante dois anos. Evinha chamou suas duas irmãs, Regina e Mariza para virem à França e formaram a terceira versão do Trio Esperança, com uma originalidade: elas cantavam o repertório brasileiro “A Capella” (sem instrumentação) e eu fazendo todos os arranjos e a produção do grupo, tanto na discografia como nos shows ao vivo. Os discos bombaram e ficaram várias semanas nas paradas de sucesso. No momento estamos em período de “descanso” com essa versão do Trio Esperança.

É verdade que você se naturalizou brasileiro?
Não é verdade, não, pois não moro no Brasil. Tenho com orgulho os documentos reservados aos estrangeiros no Brasil, e sou igualmente inscrito na Ordem dos Músicos do Brasil. Sou brasileiro e carioca de coração... só!!! (risos).

"Love Is Blue"




"Around The World" (medley)

"Toccata"

"Naquele Tempo", com Trio Esperança

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