sábado, 21 de novembro de 2015

.: Encontrados poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade

Uma aluna do último ano do curso de graduação em Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) encontrou três poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade. 

Mayra de Souza Fontebasso descobriu os textos durante o desenvolvimento de sua Pesquisa de Iniciação Científica, que é orientada pelo professor Wilton José Marques, docente do Departamento de Letras da UFSCar, que recentemente também descobriu um poema inédito de Machado de Assis, além de nove textos, até então desconhecidos, do escritor romântico José de Alencar. 

A estudante Mayra desenvolve uma pesquisa sobre os textos literários publicados na revista Raça, editada em São Carlos, entre 1927 e 1934, com circulação tanto na região quanto na capital paulista. Na fase inicial do projeto “Os modernistas e a Revista Raça (1927-1934)”, que é financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a pesquisadora se deparou com os textos do jovem Carlos Drummond de Andrade e conta que ficou intrigada, pois o estilo não era parecido com o que se conhecia do escritor. “Temos o ideal do Carlos Drummond de Andrade como um escritor de temas como a condição humana em um mundo desajustado, e nada disso aparece nos poemas de Raça, que são poemas de juventude do poeta”, explica Mayra. 

Wilton José Marques conta que após a surpresa inicial, procurou descobrir se os poemas já haviam sido catalogados e os textos não constavam nem na Bibliografia Comentada de Carlos Drummond de Andrade (1918-1934), de Fernando Py e nem no Inventário Drummoniano da Casa Rui Barbosa. O professor e a estudante também consultaram o poeta e crítico Antônio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras, que em 2012 organizou a publicação do livro “Os 25 poemas da triste alegria, do próprio Drummond”, com poemas contemporâneos aos encontrados na revista Raça. Segundo Wilton, depois de examinar os textos, o crítico afirmou: "Creio não haver dúvida de que são textos inéditos em livro de Carlos Drummond de Andrade"

Os três poemas de juventude estão escritos em prosa poética com evidentes traços simbolistas e penumbristas, isto é, marcados por um tom melancólico e pelo uso reiterado de reticências. Além disso, outro dado que remete ao início dos anos de 1920 é o fato de o poeta ter assinado os textos apenas como “Carlos Drummond”. Apesar de publicados em junho de 1929 na revista Raça, ao que tudo indica os poemas são provavelmente do início dos anos de 1920, já que a partir de 1924 com o início da amizade e consequentemente da influência literária de Mário de Andrade, a poesia de Drummond assumiria um tom mais modernista que resultaria no livro Alguma poesia (1930). Dirigida pelo jornalista Orlando Damiano (1903-1933), a revista Raça contava com alguns colaboradores ligados ao movimento modernista, além de Mario de Andrade, como por exemplo, Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia. 

Mayra, diante dessa descoberta, pretende entender melhor as primeiras influências literárias na formação de Carlos Drummond de Andrade, além de continuar o estudo sobre a contribuição dos modernistas na revista Raça, publicação que possui 17 fascículos ricamente ilustrados, dos quais 14 estão no acervo da Fundação Pró-Memória de São Carlos. A pesquisadora também pretende escrever um artigo sobre esses poemas de Drummond. Abaixo, um dos textos encontrados:

O poema das mãos soluçantes, que se erguem num desejo e numa súplica

Como são belas as tuas mãos, como são belas as tuas mãos pálidas como uma canção em surdina...
As tuas mãos dançam a dança incerta do desejo, e afagam, e beijam e apertam...
As tuas mãos procuram no alto a lâmpada invisível, a lâmpada que nunca será tocada...
As tuas mãos procuram no alto a flor silenciosa, a flor que nunca será colhida...
Como é bela a volúpia inútil de teus dedos...

O poema das mãos que não terão outras mãos numa tarde fria de Junho

Pobres das mãos viúvas, mãos compridas e desoladas, que procuram em vão, desejam em vão...
Há em torno a elas a tristeza infinita de qualquer coisa que se perdeu para sempre...
E as mãos viúvas se encarquilham, trêmulas, cheias de rugas, vazias de outras mãos...
E as mãos viúvas tateiam, insones, − as friorentas mãos viúvas...

O poema dos olhos que adormeceram vendo a beleza da terra

Tudo eles viram, viram as águas quietas e suaves, as águas inquietas e sombrias...
E viram a alma das paisagens sob o outono, o voo dos pássaros vadios, e os crepúsculos sanguejantes...
E viram toda a beleza da terra, esparsa nas flores e nas nuvens, nos recantos de sombra e no dorso voluptuoso das colinas...
E a beleza da terra se fechou sobre eles e adormeceram vendo a beleza da terra...

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