segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

.: Mariana: de quem é a culpa?, por Eduardo Martins

Obra da psiquiatra e desenhista francesa Héloïse Delavenne Garcia, radicada no Brasil

Por Eduardo Martins*
Em dezembro de 2015

O ser humano, desde o tempo em que se abrigava em cavernas, busca viver confortavelmente. Para tanto, faz uso de suas hábeis mãos com polegares oponentes, capazes de utilizar instrumentos e com isso, se proteger e modificar o ambiente para torná-lo adaptado ao seu modo de vida. Mais importante ainda, o ser humano possui um cérebro capaz de aprender, memorizar, raciocinar, prever e outras tantas funções.

O domínio do fogo propiciou ao ser humano o necessário calor para manter sua temperatura corporal e comer alimentos mais macios. Mas o mesmo fogo certamente provocou alguns incêndios incontroláveis, queimaduras e até a morte por asfixia.

De quem foi a culpa dessas eventuais mortes e dessa devastação não natural do ambiente?

Certamente faltaram conhecimentos, cuidados, tecnologias.

Passaram-se milhares de anos e o ser humano desenvolveu-se muito tecnologicamente, adquiriu conhecimento, tornou-se capaz de prever acontecimentos, controlar fenômenos naturais - enfim, cuidar de si e da natureza.

Esse cuidado muito se deveu a uma autora e a seu livro: "Silent Spring" (Primavera Silenciosa) de Rachel Carson. Esse único livro, publicado em 1962, provocou mudanças revolucionárias nas leis e, sobretudo, na cabeça das pessoas. A preocupação de Rachel Carson com o ambiente está hoje multiplicada em dezenas de reuniões em que mais de uma centena de países discutem a sustentabilidade, o ambiente, a vida das próximas gerações: Estocolmo 1972, Kyoto, Eco 92, Rio + 20, COP 21 e tantas outras.

Hoje, em pleno século XXI, lamentavelmente, em muitas atividades nem sempre se usam as tecnologias, se tomam os devidos cuidados, se usa a capacidade de prever acontecimentos, se valoriza a vida.

Aconteceu em Mariana, Minas Gerais, um terrível rompimento de barragens que desencadeou um extravasamento de um verdadeiro mar de lama: mais de 60 milhões de m3, o equivalente a 25 mil piscinas olímpicas!

Tóxica ou não, essa lama destruiu os sonhos e até a vida de trabalhadores e moradores da região. Prejudicou fauna e flora e ainda ameaça a vida no oceano. Espécies como a tartaruga-de-couro, já ameaçada de extinção, podem perder importante celeiro de nutrientes no litoral do Espírito Santo, atingido pelo "tsunami marrom".

E de quem é a culpa?

Se talvez ainda seja cedo para apontar, como responsáveis, executivos, técnicos, empresas, governantes e legisladores, certamente já passou o momento de se cuidar melhor da vida. Temos as tecnologias que podem ser cada vez mais avançadas, temos leis que podem ser modificadas se não forem suficientes, temos o aprendizado com os erros do passado. O que falta então?

Talvez a firme vontade de gente como Rachel Carson, que com um único livro inspirou a humanidade a cuidar da natureza e do futuro de nossos filhos.

*Autor do livro "Ciências Novo Pensar", da editora FTD Educação
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