quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

.: Uma aula de teledramaturgia, literatura, política e jornalismo

Por Eduardo Caetano
Em fevereiro de 2016

Denúncias de corrupção na política, pedido de impeachment, imprensa atendendo a interesses particulares e exclusivos, (in)dependência entre os poderes constituídos, esquerda X direita. Não. Não estamos aqui falando de acontecimentos recentes e muito menos reais. Ao contrário do que muitos pensaram, aqui escrevo sobre a reprise da novela "Fera Ferida" no Canal Viva. A trama foi exibida originalmente entre novembro de 1993 e julho de 1994, durante o Governo Itamar Franco. E continua atualíssima!

A versão retrô no Canal Viva entrou em sua reta final. Eu tinha somente 12 anos quando assisti pela primeira vez. Foi nesta novela de Aguinaldo Silva, baseada nas obras de Lima Barreto, que vi uma das melhores sequências da teledramaturgia sobre a relação entre imprensa e política. Nas últimas semanas, uma notícia sobre a corrupção na prefeitura da fictícia cidade de Tubiacanga é publicada no jornal "O Arroto". O escândalo destrói a carreira política do prefeito Demóstenes Maçaranduba (José Wilker).

Para entender melhor, é preciso conhecer o fio da meada. Aguinaldo Silva se inspirou em obras de Lima Barreto para construir "Fera Ferida". Na novela, o protagonista Raimundo Flamel (Edson Celulari) é um poderoso e rico alquimista, que volta à sua cidade de origem escondendo o verdadeiro nome, Feliciano da Mota Júnior, para vingar a morte dos pais. Ainda criança, 15 anos antes, Flamel/Feliciano era filho do prefeito Feliciano e da primeira-dama Laurinda (Lucinha Lins). 

A cidade viveu "a febre do ouro" e a cidadezinha foi invadida por garimpeiros. No entanto, o ouro encontrado era falso e o prefeito acaba levando um golpe dos poderosos de Tubiacanga. Ele precisou fugir com sua família pelo rio da cidade. Na canoa, é baleado. Feliciano pai e Laurinda acabam morrendo e Flamel enterra os pais e foge jurando vingança.

Já adulto, volta disposto a destruir seus inimigos: Major Emiliano Bentes (Lima Duarte), prefeito Demóstenes (José Wilker), vereador Numa Pompílio de Castro (Hugo Carvana) e professor Praxedes de Menezes (Juca de Oliveira). Sua isca para atiçar a ganância dos poderosos é inventar que, enquanto alquimista, possui uma fórmula secreta capaz de transformar ossos humanos em ouro. O que Flamel não imagina é que o coração será seu principal ponto fraco, já que volta a se apaixonar pela sua namoradinha de infância, a destemida Linda Inês (Giulia Gam), filha do prefeito Demóstenes. Num momento do folhetim, abre mão do amor para dar sequência ao seu plano de vingança.


A comédia reúne tipos marcantes como a senhorita Ilka Tibiriçá (Cássia Kis Magro), Ataliba Timbó (Paulo Gorgulho), Rubra Rosa (Suzana Vieira) e Fabrício (Murilo Benício).

Fabrício, aliás, é o que desencadeia a alternância de poder em Tubiacanga. Varredor de rua concursado pela prefeitura, morador da periferia, era comunista e sempre criticado pela quase namorada Isoldinha (Anna Aguiar) por ter um discurso esquerdista ultrapassado, com muita teoria e nenhuma prática. É aí que Fabrício descobre a edição extra do jornal de oposição "O Arroto", de propriedade de Flamel, com a notícia da denúncia contra o prefeito Demóstenes. O protagonista criou o jornal para contrapor a "Gazeta de Tubiacanga", editada pelo professor Praxedes e de propriedade do major Bentes, que era, no mínimo, simpática ao Governo Demóstenes.

A edição extra de "O Arroto" iria às ruas após os planos de Flamel com a segunda experiência serem concluídos. A notícia foi feita com base no dossiê elaborado pelo pré-candidato a prefeito, Áureo Poente (Cláudio Fontana), filho do vereador Numa, que até então fazia uma oposição de fachada ao prefeito, mas resolve fazer política "às veras" ao descobrir que Demóstenes e sua esposa Rubra Rosa foram amantes por dez anos.

Fabrício distribui a edição extra do jornal à revelia de Flamel e lidera o povo contra Demóstenes. O vereador Numa, fazendo valer, agora de fato, seu papel de oposição, aproveita a ausência do presidente da Câmara, major Bentes, e solicita a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e pede o impeachment do prefeito.


No entanto, numa estratégia política, antes de ter o mandato cassado, Demóstenes renuncia ao cargo de prefeito. A cena é emblemática. Com uma interpretação ímpar do saudoso José Wilker, na praça central de Tubiacanga,  Demóstenes discursa renunciando ao mandato e prometendo provar sua inocência, vestindo um terno impecavelmente branco, enquanto leva uma chuva de ovos e tomates. "Eu ressurgirei das cinzas, não como uma fênix, mas branco como uma pomba, puro como uma virgem, limpo e sem manchas, como este meu terno branco... (pausa) Assim que for lavado", discursará.

Flamel, que já estava comprometido em financiar a campanha de Áureo, escolhe o pré-candidato a vice, o varredor de ruas e comunista Fabrício, deixando a chapa mais popular. A dobradinha vence as eleições municipais e assume o poder em Tubiacanga.

Bom rever, reviver... Viva!



Sobre o autor do texto
Ler significa reler, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem e interpreta a partir de onde os pés pisam". Essa frase, do teólogo Leonardo Boff, resume bem a personalidade do jornalista Eduardo Caetano*. Nascido em janeiro de 1982, ele é formado pela Universidade Católica de Santos e encontra nas observações, sempre muito coerentes a respeito da vida real e da teledramaturgia, respostas que distribui a quem está disposto a ouvir. Atua, também, como assessor de imprensa.

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