quarta-feira, 23 de março de 2016

.: Tom Schuman, há 42 anos viajando nas teclas do Spyro Gyra e do jazz


"Eu amo todas as formas de jazz",
uma entrevista exclusiva com Tom Schuman


Por Luiz Gomes Otero
Em março de 2016



Integrante da formação original do grupo de jazz Spyro Gyra, o tecladista Tom Schuman é um músico que dedica 24 horas do dia para a música. Isso depois de mais de 40 anos com performances ao vivo e gravações antológicas de estúdio da banda, algumas até bem conhecidas do grande público brasileiro, como a antiga vinheta de abertura do "Telecurso 1º Grau" ("Lovin You"), o tema de abertura do "Free Jazz Festival na Rede Globo" ("Bob Goes To The Store") e tantas outras usadas em propagandas comerciais em rádio e televisão. E quem não se lembra dos hits como "Morning Dance", "Percolator" e "Catching The Sun" tocando nas rádios no início dos anos 80? 

Schuman vem da escola da jazz fusion e revela ter, assim como seus amigos da banda, uma forte influência da nossa música brasileira e seus ícones, como Antonio Carlos Jobim e Hermeto Paschoal, entre outros. Seu trabalho mais recente com a banda foi o disco "Rhinebeck Sessions", e seu último projeto solo, o elogiado "Designated Planets", foi lançado em 2013. Mas as turnês com a banda e as apresentações do projeto solo continuam até hoje, provando que o prestígio e o profissionalismo seguem norteando sua consagrada carreira. 

Em uma entrevista especial para o Resenhando, o músico tenta explicar em poucas palavras o segredo da longevidade da banda que coleciona fãs em centenas de países pelo mundo afora, e aproveita para comentar sobre o jazz contemporâneo e suas perspectivas. "Espero  ter a chance de trabalhar algum dia com artistas brasileiros, seja no palco, seja no estúdio"

Qual é o segredo da longevidade do Spyro Gyra?
Não há uma resposta simples para essa pergunta, então eu vou tentar explicar da forma mais breve possível o que eu acho que o nosso "segredo" é . Primeiro de tudo, Jay Beckenstein teve sorte quando decidiu ser nosso empresário, além de ser um músico de primeira linha. Phil Brennan, que tem sido leal a ele e sua música durante o tempo que existe a banda, é outro fator importante. Phil e eu temos trabalhando com Jay desde os primórdios da banda, em meados dos anos 70 (mais de 40 anos). Nós dois somos de confiança, mostramos trabalho duro e um padrão de excelência no que fazemos. Em 1984, contratamos nosso homem do som, Neil Stadtmiller e o guitarrista Julio Fernandez. Ambos ainda estão conosco até hoje! Em seguida, em 1992, contratamos Scott Ambush no baixo. Esses caras são todos incrivelmente confiáveis e excelentes em seus trabalhos. Assim, o núcleo da banda, gestão e som permaneceram os mesmos desde 1992. A única cadeira que tem se alternado é a da bateria. Nossos fãs continuam conferindo nossos shows porque eles podem contar com o núcleo para estar lá e dar-lhes uma performance única, que só vem de caras que trabalharam juntos por tanto tempo. Todos nós somos como uma família e qualquer um que está em nossa presença sente que há camaradagem no palco. Devido a este núcleo familiar, temos uma reputação da indústria de ser pontuais, profissionais, fáceis de trabalhar. Promotores e equipes de produção em todo o mundo ficam ansiosos por nossa chegada e todos têm um bom tempo durante nossa breve estadia. Isto traduz-se na performance de palco e contribui para o prazer nas audiências. Nós também somos muito bons em adaptar musicalmente e sonoramente a qualquer local, seja um clube pequeno ou um estádio. Podemos tocar uma canção lenta ou balançar a casa! Eu poderia escrever um livro respondendo esta questão.

Como funciona o processo de produção de música no Spyro Gyra?
O processo de produção de música varia de projeto para projeto. O último disco, "Rhinebeck Sessions" foi único porque nós propositadamente entramos em estúdio completamente despreparados e saímos com um CD em apenas quatro dias. Todo mundo escreveu a música em conjunto no local e realizou cada composição ao vivo, com overdubs mínimos. Isso só pode acontecer com um núcleo que se conhece tão bem, podemos terminar um do outro frases musicais. Outros projetos são preparados com antecedência, com compositores individuais que fornecem o material com uma demonstração de áudio e música escrita na mão, em partituras. Estamos sempre à procura de novas maneiras para mostrar o melhor de nós, tanto em termos de composição como em desempenho no palco.

Desde o início, a banda tem mantido estreita relação com a música brasileira. Fale sobre essa influência.
Como músicos de jazz, todos nós descobrimos a música brasileira através de nossos heróis: Antonio Carlos Jobim, Sérgio Mendes, Gilberto Gil, Milton Nascimento,Hermeto Pascoal, Airto Moreira, Flora Purim e Eliane Elias, só para citar alguns. O jazz na América não seria tão interessante sem a influência da música brasileira.

Você também trabalha em projetos solo? Quais são os atuais?
Atualmente estou escrevendo um material para um projeto de jazz acústico. Eu amo todas as formas de jazz. Mas minhas raízes estarão sempre com os trios, com piano e pequenos conjuntos acústicos. Não vou antecipar mais detalhes agora, porque eu quero que seja uma surpresa.

Vocês tocaram no Brasil algumas vezes. Que lembranças vocês têm do país?
Temos a sorte de ter tocado no Brasil muitas vezes ao longo dos últimos 40 anos e acho que é um lugar mágico tanto musicalmente como culturalmente. As pessoas são bonitas por dentro e por fora! Todos parecem ter um conhecimento inato de música de alta qualidade. É o paraíso para um músico!

Qual é a sua opinião sobre o jazz atual?
Isso depende de qual jazz atual que você está se referindo. Há um monte de novas misturas musicais lá fora, que são muito interessantes. Eu só não gosto das formas mais comerciais da música que estão sendo passadas como jazz contemporâneo nestes dias. Também estamos enfrentando uma seca na criatividade. Eu acredito que isso decorre do advento da produção de música digital, distribuição e streaming. O download gratuito excessivo tornou mais difícil o processo para liberar produtos de qualidade, simplesmente porque eles não são mais lucrativos para fazê-los. Além disso, as estações de trabalho de áudio digital como ProTools criaram músicos preguiçosos, que não se importam de jogar em sintonia ou no tempo, porque eles sabem que podem "corrigi-lo" mais tarde. Meu medo é que o futuro do jazz vai sofrer porque os níveis de desempenho de jovens músicos (com algumas exceções) estão diminuindo. Eles parecem ter se desligado da quantidade de prática, concentração, trabalho duro e dedicação, que realmente faz a diferença no jazz. Espero que eu esteja errado!

Que músicos e bandas você tem ouvido ultimamente?
Eu amo Gonzalo Rubalcaba! Ele é o meu pianista preferido, uma sensação afro-cubana. Eu também ouvi o lançamento mais recente do Yellow Jackets. Eles são a minha atual "Weather Report". Snarky Puppy é uma grande banda, com novas ideias e performances interessantes. Estou impressionado com o jovem pianista Joey Alexander, que passa uma profundidade e alma ao tocar o instrumento com tão pouca idade. Como regra geral, eu tento ouvir tudo com uma mente aberta. Se você ouvir dessa forma, vai sempre encontrar algo em toda a música que satisfaz e inspira algum aspecto de sua vida.

Que conselho você daria para um músico iniciante?
Obtenha dinheiro! Descubra uma maneira de fazer uma boa vida em primeiro lugar, gestão de negócios, estudo. E obtenha uma educação que vai ajudar a sua carreira e ser útil para você e sua família. A música não vai ser o único ganha-pão para todos. Apenas um seleto grupo de músicos começa a fazer as quantias suficientes para se manter. Quando você alcançar a segurança financeira, pode perseguir a sua música com a concentração e a intensidade que ela merece. Infelizmente, o velho ditado é verdadeiro para este dia: "É preciso dinheiro para ganhar dinheiro"!

Há intenção de voltar a tocar no Brasil?
Eu vou sempre estar aberto a qualquer promotor, patrocinador ou investidor privado que quiser me contratar ou com o Spyro Gyra para voltar ao Brasil. Eu também quero ter a chance de trabalhar com artistas brasileiros, seja no palco ou no estúdio de gravação. A internet fornece uma janela de oportunidade que abrange o mundo inteiro em segundos. Dessa forma, as possibilidades são infinitas!

"Morning Dance" (Spyro Gyra)

"Catching The Sun" (Spyro Gyra)

"Bob Goes The Store" (Spyro Gyra)

"Look In My Eyes" (do disco "Designated Planets")

"Funky Schu-Shine" 


Sobre o autor
Luiz Gomes Otero é jornalista formado em 1987 pela UniSantos - Universidade Católica de Santos. Trabalhou no jornal A Tribuna de 1996 a 2011 e atualmente é assessor de imprensa e colaborador dos sites Juicy SantosLérias e Lixos e Resenhando.com. Recentemente, criou a página Musicalidades, que agrega os textos escritos por ele.
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