terça-feira, 26 de abril de 2016

.: Crítica do álbum "Limonade", de Beyoncé: empoderamento puro

Por Helder Miranda
Em abril de 2016

Ouvir  "Limonade", o novo álbum de Beyoncé, desperta, de alguma maneira, o orgulho de ser um branco miscigenado nessa mistura de raças que é o Brasil, e uma espécie de "mea culpa" pelo que fizeram os nossos antepassados com os escravos da raça negra, e indígenas, e tudo o que continua a ser feito com as minorias ainda discriminadas. 

O título, em uma tradução literal, é "Limonada". Em um primeiro momento não deixa de ser ridículo uma cantora pop da magnitude de Beyoncé lançar um álbum com esse título. Não, muito pelo contrário, ridícula é a ignorância em não saber o contexto em que se enquadra o título "Limonade". No passado, acreditava-se que os negros, ao tomarem a bebida derivada do limão, clareavam a pele.


Também é bem triste se pararmos para pensar que em pleno século XXI uma artista como Beyoncé lançar um disco fora da curva para protestar, é porque há algo errado. O mundo deveria gritar igualdade há muito tempo, e "Limonade" também soa como um apelo para que as pessoas atentem para isso enquanto não encaretamos ou involuímos de vez.

Beyoncé grita negritude neste álbum lindo, que já vem a público com todos os clipes prontos.  Ela é a preta do cabelo pixaim e nariz característico, mas também é a "gostosa empoderada", encantadora de homens e, por que não... mulheres? A voz dela continua incrível e as referências, como a que sai quebrando carros na mesma atitude de Michael Jackson na parte censurada do clipe "Black or White", enquanto esbanja leveza nos vocais e um olhar sugestivo e sapeca. 


Beyoncé era uma panela de pressão prestes a explodir a qualquer momento e, quando explodisse, meu bem, ela não teria limites. Há muito tempo ela faz sucesso, isso é público e notório, mas nunca havia explodido desta maneira. Há um mergulho visual que conduz a uma viagem entre clipes bem-construídos repletos de imagens fortes, cujo elo de ligação é a voz de Beyoncé, questões raciais e a vontade de dizer que todos, absolutamente todos, de alguma maneira, podem fazer e ser tudo o que quiserem. "Limonade" é uma ode à igualdade, seja ela em que segmento for.

Em alguns momentos a revolta de Beyoncé grita aos olhos e dá-se a impressão de que finalmente o público passa a enxergar "a rainha do pop" da atualidade como uma mulher negra, como se isso fosse uma grande descoberta. Ela sempre foi, mas nunca foi enxergada como tal. Em outros, soa como uma certa ingratidão ao público branco que a acolheu, mas isso não deixa de ser uma lição, já que Beyoncé foi acolhida por méritos próprios, não por caridade dos que ainda oprimem os negros mundo afora.


Sim, ela é negra, é linda, e ainda por cima manda todo mundo se calar para passar o seu recado: uma ousadia, até para os tempos de hoje. Mas para entendê-la completamente você deve se colocar no lugar do negro, do lado dos oprimidos mesmo após anos do fim da escravatura. A ironia disso tudo é que a mulher que abre seus olhos para isso, embora negra e sensível à causa, é uma das poucas da comunidade a ter voz, seja porque tem dinheiro, talento ou sucesso. 

Não se engane, Beyoncé está sozinha e, ao mesmo tempo acompanhada por um time de gente seleta para fazer coro a uma voz que represente a de tantos bilhões de negros mundo afora que não são ouvidos. As melhores músicas são "Hold Up", "Inch" (uma parceria com The Weeknd), "Daddy Lessions", em que volta às origens de New Orleans e "Formation", que gerou muito barulho ao ser lançado recentemente. Há também parcerias com James Blake e com o "injustiçado do Grammy 2016" Kendrick Lamar. 


Com uma hora e cinco minutos, o novo trabalho álbum visual foi exibido pela primeira vez na HBO, esta disponível no Tidal e já foi bem pirateado. É, sem dúvida, um trabalho sobre empoderamento, qualquer um deles, seja de negros, seja de mulheres, seja de oprimidos. Mas também soa como um grito de liberdade e uma negativa às concessões do mundo pop. Beyoncé, finalmente, conseguiu dar o seu recado.

Confira os melhores momentos de "Limonade":

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