quarta-feira, 27 de abril de 2016

.: Entrevista com Luiz Fernando Almeida, ator

"Estar em cena é um risco iminente".
Luiz Fernando Almeida 
Por Helder Miranda
Em abril de 2016




O ator santista Luiz Fernando Almeida volta em temporada com o espetáculo "Gotas de Codeina", com um clima para lá de intimista: dentro de um apartamento em Santos. 

O monólogo conta a historia de Cesar, um homem comum, que aparenta estar contente com a vida que leva, mas que, no fundo, está profundamente deprimido. A peça revela intimidades de um homem que vive atrás de máscaras, sem coragem de assumir seu verdadeiro “eu”. Cesar, como tantos outros, já não suporta mais continuar e pensa em acabar com a própria vida. 

A plateia é recebida em uma sala com vinho e petiscos para, de maneira despretensiosa, vivenciar com o ator alguns momentos cotidianos do personagem, enquanto refletem sobre questões como amor, família, sexualidade e o que é ser feliz. Até que ponto podemos fugir do que realmente somos? Vale a pena viver uma vida pela metade?

As sessões, acontecem todas as sextas-feiras de abril. São apenas para dez lugares por apresentação e os interessados precisam confirmar reservar ingressos via inbox na fanpage da peça neste link para receber as instruções de como chegar no local. 

Este é o segundo monólogo de Luiz Fernando Almeida, em cartaz há cinco anos, com o premiado espetáculo "Dama da Noite", dirigido por Andre Leahun (entrevista neste link), que atualmente cumpre temporada no Centro Compartilhado de Criação, às terças e quartas-feiras, em São Paulo. Nesta entrevista exclusiva concedida ao site Resenhando, ele fala sobre sexualidade, hipocrisia da sociedade e, claro, Caio Fernando Abreu.


RESENHANDO - Como surgiu a ideia de encenar a peça dentro de um apartamento?
LUIZ FERNANDO ALMEIDA - A ideia nunca foi essa. "Gotas de Codeina" foi um trabalho gestado dentro do Sesc Santos no projeto "CorposubCorpo/Ocupação32". Acontece que, algumas vezes, por conta da vida corrida, eu e os diretores da peça Paula D'Albuquerque e Kadu Verissimo, começamos a ensaiar no meu antigo apartamento. Descobrimos que este não seria um espetáculo para palco, nem espaços convencionais. Buscávamos uma estética e uma linha de interpretação que fugisse do "teatralizado demais". Os ensaios em casa vieram pra coroar a certeza de que esse trabalho precisava ser um pouco mais realista. Encená-lo em apartamentos seria mais interessante.

RESENHANDO - Levar um público desconhecido para dentro de um apartamento não é algo arriscado, no sentido de segurança e também como ator, tornando-se mais vulnerável?
L.F.A. - Estar em cena é um risco iminente. Seja no teatro ou espaços alternativos. Mas receber pessoas  em um espaço "não-convencional" requer, sim, alguns cuidados a mais. Eu já fiz a peça no meu apartamento, na casa de amigos e em espaços públicos. Mesmo assim, por se tratar de um tema tão controverso, eu preciso fazer uma triagem. Nossa divulgação é mais forte nas redes sociais, a imprensa não publica tanta coisa porque "suicídio" ainda é um tema tabu. Dessa forma, consigo ter mais controle e outro tipo de contato com o público interessado em assistir. O endereço de onde estamos apresentando não é revelado assim. O espetáculo começa quando o público entra em contato para receber informações e, a partir dali, começa a interagir com o personagem trocando mensagens constantes. Dessa forma, dá para sentir um pouco, mas nunca ter total certeza, de que tipo de pessoa irá assistir.

RESENHANDO - O que tem de você no Cesar, do "Gotas de Codeina"?
L.F.A. - Nada, eu sou muito medroso e de bem com a vida e que fique claro: NUNCA pensei em me matar, NUNCA teria coragem, embora hoje eu consiga compreender melhor a dor de quem carrega este sentimento intrínseco ao longo da vida. O Cesar existe, eu o conheço e utilizei traços de sua personalidade pra compor esse personagem.


RESENHANDO - Ele é um homem  que aparenta ser feliz, mas é deprimido. Esse é um dos casos em que a arte imita a vida?
L.F.A. - Eu iria além: esse é um caso cada vez mais comum. As pessoas, cada vez mais, vivem de publicidade em redes sociais e se apresentam de uma forma quando na verdade, em muitos casos, a vida está no buraco. No caso do Cesar, ele mantém as aparências por não poder ser quem é de verdade, e seu sofrimento, vem da agonia de não conseguir assumir sua verdadeira sexualidade. Então, decide viver uma vida de aparências, posando com a família para o álbum, com sorriso amarelo e vivendo a vida que lhe disseram que era  certa.

RESENHANDO - A peça é sobre um homem que se esconde e não tem coragem de se assumir. Isso é mais comum do que se imagina?
L.F.A. - Sobretudo em nossa cidade (Santos). Cada vez mais as pessoas descobrem na internet uma forma de vivenciar sua sexualidade de modo pleno e, muitas vezes, sigiloso. Na vida real, vivem atrás de máscaras e instituições que lhe dão a sensação de pertencimento dessa sociedade hipócrita em que vivemos.

RESENHANDO - Até que ponto podemos fugir do que realmente somos?
L.F.A. - E uma pergunta muito pessoal, mas acho que autossabotagem é algo comum. O limite é de cada um, mas chega uma hora em que é preciso se olhar de frente, por mais que você consiga fugir por muito tempo. E quando chega esse momento, é preciso mexer nas feridas, olhar para si e lidar com essa bola de neve que criou.


RESENHANDO - É impossível entrevistá-lo e não falar do espetáculo "Dama da Noite". O que esse espetáculo tem de tão especial?
L.F.A. - Esse trabalho modificou a minha vida e a minha carreira artística como um todo. Ele me trouxe respeito profissional e me deu oportunidades que eu nunca havia tido. Foram 14 temporadas, até agora, em Santos. Três temporadas com sucesso de público e crítica em São Paulo. Viajamos pelo país em cidades como Rio de Janeiro, Curitiba, Rio Branco, entre outras. Fomos indicados a prêmios importantes ao lado de profissionais renomados, o espetáculo virou um curta-metragem que ainda tem rodado esse "mundão". Eu me tornei um ser humano melhor a partir das trocas de experiências com o público. Trago tatuado em meu braço o logotipo criado pelo Betinho Neto como uma forma de carregar esse espetáculo para sempre comigo. Na semana passada, completamos cinco anos em cartaz e eu nem penso em parar. Acredito que quanto mais velho eu ficar, mais interessante essa personagem ficará. Então, preparem-se porque ainda temos muita estrada pela frente.

RESENHANDO - É o segundo monólogo seguido. O que o atrai neste tipo de peça? 
L.F.A. - O desafio de estar em cena sozinho é uma experiência necessária para qualquer ator. O que me instiga é a adrenalina de estar ali, sozinho e tudo depender de mim. É um exercício absurdo de concentração e preciso mergulhar de cabeça no personagem. Não há espaços para vacilos, não dá para ser de mentira, sobretudo, com propostas intimistas como nesses dois trabalhos. Tem que ser de verdade. E me colocar nesse estágio é um aprendizado diário. Eu ainda pretendo fazer mais um monólogo, talvez eu tenha descoberto minha verdadeira "zona de conforto" no teatro. Mas ainda quero dividir o palco com muita gente.

RESENHANDO - Em que mais se identifica, e o que o mais o distancia da "dama da noite" da peça?
L.F.A. - Eu tenho muito daquela personagem. Entendo bem aqueles sentimentos, porque já estive naquela posição e ainda me considero um pouco "fora da roda" como ela diz. Acho que o espetáculo aconteceu porque todo mundo, lá no fundo, é um pouco como aquela personagem. Então, rola uma identificação geral. Quem nunca sentiu-se rejeitado na vida?




RESENHANDO - Quais as principais diferenças entre esta peça e o curta que pode ser visto no YouTube?
L.F.A. - O curta-metragem é uma adaptação da peça. Quem assistir os dois perceberá que houve um respeito muito grande com o trabalho feito no teatro, ao levá-lo para a telona. A diferença, na verdade, está mais na interpretação. No cinema, trabalhamos de forma mais naturalista, no teatro, a "dama" é over. O texto também precisou ser adaptado porque cinema tem outro tempo. Mas, de forma geral, os dois trabalhos dialogam muito bem.

RESENHANDO - Qual é a sua relação com a obra de Caio Fernando Abreu?
L.F.A. - Caio (entrevista com ele neste link) foi o primeiro autor que li na vida e pensei: "Caramba, alguém me entende!". Eu tinha uns 15 anos de idade e li "Os Dragões Não Conhecem o Paraíso", que é o livro que tem o conto "Dama da Noite". Dali em diante, comecei a devorar tudo dele que aparecia na minha frente. Caio é o autor que marcou minha vida, sem dúvida alguma. Caio é um dos escritores mais geniais desse país pela percepção gigantesca que ele tem do ser humano. Como pode um cara escrever textos tão atemporais? Como pode a humanidade ter evoluído tão pouco?  Ter essa percepção do outro e conseguir transcrevê-la, é só para os gênios. E, para mim, Caio é genial!

Serviço:
Os ingressos custam R$ 40 ( inteira) R$ 20 ( meia entrada)
Outras informações pelo telefone: (13) 98161-8751, com Cesar

Ficha Técnica
Idealização: Luiz Fernando Almeida
Dramaturgia: Diego Lourenço
Direção: Paula D’Albuquerque e kadu verissimo
Trilha sonora: Wagner Parra e Luiz Fernando Almeida
Designer gráfico: Betinho Neto
Produção: Superbacana Produções
Patrocínio: Bazar Cafofo
Fotos: Everton Campanhã



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