terça-feira, 30 de agosto de 2016

.: “X Factor” estreia com poucas novidades e mais do mesmo



Por Helder Miranda
Em agosto de 2016

“Mãe, eu tô na Band”, anunciou Luan Lacerda, o primeiro participante que se apresentou para os jurados e foi aprovado na versão brasileira do “X Factor”, programa que estreou segunda-feira, 29 de agosto, na Band. A trilha sonora, toda internacional, deu a impressão de que estava assistindo um “X Factor” de qualquer país, menos o do Brasil, a não ser pelo nome e por algumas canções em português defendidas pelos participantes.

Excesso de autoconfiança ou acreditar em falsos elogios, o que se viu foi um desfile de egos de gente que se acha mais do que é e um pouco mais da conta de coitadismo exacerbado. O próprio Luan, que enfrentou 19 horas de viagem, e que se apresentou diante de uma família chorosa, é um exemplo disso. Canta melhor do que se esperava, é verdade, e arrepiou até quem estava em casa, mas apenas isso é necessário ou ele será engolido na próxima fase?

V. Killer, a gatinha de boca azul e timbre irritante, segunda participante a ser mostrada, também foi aprovada, mais pelo visual do que pelo talento vocal. Fabi Cantinelli, que se saiu melhor e foi mostrada apenas um pouquinho, foi melhor, assim como uma série de outros que não passaram. De tão reality, faltou o que foi exaustivamente divulgado pela imprensa: a confusão nas audições e a desumanidade com que foram tratados os calouros da vez, apenas a parte bonita foi mostrada.

Por trás de uma apresentadora carismática, Fernanda Paes Leme, saída da Globo, demonstra competência no que já fazia com menos destaque no “SuperStar”, e que agora anda chorona – na atração “global”, ela não fazia isso. Passaram por lá grupos fajutos de garotos bonitinhos formados pela internet que não cantam nada, mas que foram aprovados, bandas melodies chaaatas… sertanejos galãs estereotipados que foram barrados e aprovados, e poucas joias a serem lapidadas, como Tamires, a candidata que cumpre a lacuna daqueles calouros “que cantam muito” e escolhem músicas que exigem muito para provar isso. Com ela, eu me senti no Raul Gil, e acredito que eleger alguém que pode ser até talentoso, mas que não traz novidade, é um retrocesso.

Dos jurados, apenas Paulo Miklos, ex-”Titãs”, e Rick Bonadio têm a trajetória suficiente para estar à frente de um programa que tem a ousadia de apontar o “quê a mais” nas outras pessoas. Quem são eles para dizer isso? Quem somos nós para apontar quem tem, ou não, algo tão subjetivo? Di Ferrero, apesar do bom trabalho que desempenha à frente do “NX Zero” não tem a vivência necessária para julgar talentos e Aline Rosa passa a impressão de que só foi escolhida porque as cantoras de sucesso na Bahia não estavam disponíveis, ou outras, com muito mais representatividade, como Paula Fernandes ou Anitta (que deve ter sido convidada), recusaram.

Todos os jurados estão em papéis muito manjados em outros “talent shows”. Não há nada de original neles, presos nos papéis de bonzinhos ou carrascos, dependendo do juízo de valor que fazem de cada candidato. Mas a estreia não trouxe novidade nenhuma e lembrou muito o “Ídolos” na época do SBT. Mauricio Meirelles, por sua vez, parecia estar em uma pauta "levinha" do extinto jornalístico "CQC".

De Campo de Goitacazes, Jéssica Passos foi a participante mais original. Engraçadíssima, muito parecida com a atriz Thalma de Freitas, e com um senso de humor aguçadíssimo, que transcende o propósito deste programa, que é o de revelar talentos rentáveis à indústria fonográfica, mesmo em tempos de tanta pirataria. Por conta dos fracassos dos outros programas em fabricar um novo ídolo, o programa estreou com um pouco de descrédito, como todos os outros nesse segmento. Jéssica, a baianinha carioca que não soube explicar de onde veio o sotaque nordestino, mostrou que estava ali para o que desse e viesse. Poderia render mais.

As irmãs do “Sweet Dreamers” mostraram um dilema interessante, tanto que renderam o primeiro intervalo de um programa que, a exemplo da versão brasileira do “MasterChef”, parece ser infinito. Havia duas, uma desafinada, outra, não. Propuseram avaliar individualmente. Se eu fosse o irmão que havia ido mal, eu teria aberto mão sem pestanejar. Mas no programa, isso não aconteceu sem um drama, claro, eles querem histórias para contar, porque todo reality precisa de uma dose de folhetim. Se a que foi mal teve uma atitude altruísta e abriu mão para o sucesso da outra, nada sabemos. É claro que deixaram isso para o próximo capítulo.


Sobre o autor
Helder Miranda é editor do Resenhando.com há 12 anos. É formado em Comunicação Social - Jornalismo e licenciado em Letras pela UniSantos-Universidade Católica de Santos, e pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP. Atuou como repórter em vários veículos de comunicação. Lançou, aos 17 anos, o livro independente de poemas "Fuga", que teve duas tiragens esgotadas.
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