sexta-feira, 26 de agosto de 2016

.: Entrevista com Leo Rech, guitarrista da banda "Catavento"



"...a psicodelia é algo que faz ir além, expandir os horizontes e encontrar caminhos de se expressar, não simplesmente tomar um LSD e ficar doidão".
Leo Rech

Por Luiz Gomes Otero
Em agosto de 2016


A banda gaúcha "Catavento" lança seu novo álbum, intitulado "CHA", como um grito de liberdade contra a monotonia, a caretice e a rotina características da contemporaneidade. “As composições vão contra algumas coisas que nos ensinam desde que a gente nasce e entra na escola, que a nossa alegria tem horário e você tem que guardar sua felicidade pra momentos específicos'', conta Leo Rech, guitarrista e vocalista da banda.

Diferente do primeiro disco ("LYATR", de 2014), "CHA" tem composições de quatro integrantes da banda.  O trabalho vem para consolidar a banda entre as novas apostas da música psicodélica nacional, ao lado de nomes como "BIKE" e "Boogarins". Exemplo disso é a faixa "The Sky", que surgiu durante uma sessão de lisergia em Porto Alegre. De acordo com a própria banda, o disco tem um quê de pop. Os ares sujos, no entanto, estão todos ali: nas sobreposições de vozes, misturas instrumentais, na “pauleira”. Ainda assim, é um álbum pra se apreciar com calma, como quem degusta um bom chá. Confira a entrevista que o guitarrista Leo Rech concedeu a site Resenhando sobre esse novo trabalho.


Enquanto algumas bandas buscam o caminho mais convencional no rock e no pop, vocês parecem ter optado pelo som alternativo, não muito convencional no pop. O que motivou essa escolha?
LEO RECH - Acho que não foi uma escolha. Foi o som que se apresentou para nós até então... pode até ser que o próximo disco seja muito mais pop ou sei lá. Inclusive, esse disco, comparado ao nosso primeiro - "Lost Youth Against The Rush" - já tem um atmosfera mais pop, mesmo dentro das camadas de sujeira muito maiores que as do trabalho anterior. Acho que a moral da coisa toda é que se não for algo premeditado do tipo ''quero fazer um som pop e comercial'', sempre poderá ser algo único, pop mas experimental ao mesmo tempo, saca... A gente fica bem livre pra criar as músicas sem pensar no que elas devem ser ou não.. tem até essa história que meio que qualquer pessoa que for falar do nosso som vai chamar de psicodelia e tal... mas na verdade isso também não é nada premeditado... música psicodélica é até uma expressão que a galera usa demais... tipo, qualquer som pode ser psicodélico se a gente pensar que a psicodelia é algo que faz ir além, expandir os horizontes e encontrar caminhos de se expressar, não simplesmente tomar um LSD e ficar doidão.


O cenário gaúcho é extremamente fértil para o rock. Na sua opinião, o que proporciona esse cenário para o surgimento de novos talentos nessa região?
L.R. -  Então, tem muita coisa boa e diferente entre si surgindo na música aqui no Rio Grande do Sul. Coisas do tipo "Não ao Futebol Moderno", "Supervão"... que tem propostas diferentes mas fazem parte de um mesmo cenário. E esse novo cenário não tem muito a ver com aquela velha história de rock gaúcho de uns tempos atrás. Muitas vezes essa coisa do rock gaúcho fica bastante gravada nas pessoas mas o que rola agora é algo bem distinto, do jeito que eu vejo. Também acho que essa é uma parada que tá rolando no Brasil inteiro no momento... as bandas conversam mais entre si hoje em dia, os músicos viraram produtores, trazem bandas pra sua região... acho que esse contato do Brasil todo fez com que a distância diminuísse pra nós que moramos aqui no extremo sul do país.. isso fez com que bandas começassem a querer vir pra cá tocar e, consequentemente, as bandas daqui começaram a sair pra tocar também. Tudo isso dentro do cenário independente. Respondendo de forma resumida essa pergunta, acho que o que tem possibilitado o surgimento de novas formas de expressão e a visibilidade delas aqui no sul é justamente essa organização, essa interação, esse contato e o envolvimento com outras partes do país e outras pessoas que estão fazendo a mesma coisa. Selos de música começaram a surgir como a "Honey Bomb Records", "Umbaduba Records", "Lezma Records", entre outros, e isso faz com que as coisas conversem mais entre si... então acredito que é através da coletividade que a gente encontra a chave pra essa evolução musical.


No que esse segundo disco da banda que está sendo finalizado ("CHA") difere do primeiro trabalho lançado?
L.R. -  Nesse disco a gente focou bem mais na pré-produção... o disco anterior foi elaborado praticamente todo na pós-produção... escolha de timbres e tudo mais... a gente também não tinha muito equipamento, então gravamos tudo com uma mesma guitarra plugada na mesa e depois fomos decidindo o que ia acontecer e como ia soar. Já nesse a gente já estava um pouco mais equipado e conseguimos criar um som mais orgânico, mais fluído... Outra coisa interessante é que nesse disco tem composições de quatro integrantes da banda, que no "LYATR" não era assim. Então ele acabou virando uma gororoba de sensações e influências vindos de muitos lados, mas que no final das contas a gente abraça como sendo uma coisa só, com muito amor. Tem alguns sons em português que antes não existiam - era tudo inglês.

Como funciona o processo criativo do "Catavento"?
L.R. -  O processo criativo é bem distinto por se tratar de várias pessoas compondo e tal.. então as referências vem de coisas do nosso cotidiano, qualquer coisa pode se tornar uma inspiração pra uma música... amor, ódio, paixão, o céu, o mar, uma pessoa, uma folha voando, um detalhe qualquer. Isso é uma coisa que nem tem muito como saber, vai só acontecendo, a gente mesmo não sabe muito bem... tudo isso é bem confuso pra nós também. Acho que aos poucos a gente vai se encontrando e talvez em algum momento a gente consiga descobrir alguma estética que seja confortável para seguir como banda, mas até então é pura experimentação, acho que os sons saem mais como um vômito do que algo bolado.


Como é que vocês fazem para reproduzir esse som psicodélico ao vivo?
L.R. -  Estamos tentando descobrir também. Nós éramos em cinco até então, mas durante o processo de gravação, o Francisco Maffei, que é nosso produtor e nosso mago, acabou entrando para a banda de vez, para fazer a parte de efeitos, vozes, sintetizadores e tudo mais, que estão presentes pelo disco todo. Assim, a gente exagerou bastante em camadas de instrumentos e distorções e ruídos em estúdio, mas a gente acredita, de certa forma, que a experiência de ouvir um disco e ver um show da mesma banda são coisas distintas, então a ideia é ver de que forma o "CHA" pode soar ao vivo mesmo, no momento de troca de energia... e esse momento do ao vivo, de entrega, de conexão, de olhar no olho, ou fechar o olho, de sentir o outro sendo um só contigo dentro da mesma bolha é algo muito intenso pra nós e que nos ensinou muito e por isso muito do "CHA" é resultado disso, desses shows que fizemos pra divulgar o primeiro disco.

Como estão os planos para shows?

L.R. - Vai rolar o lançamento oficial do disco em São Paulo, no dia 2 de setembro, na Z Carniceria. Junto com isso vai rolar uma pequena gira por algumas cidades como Limeira e Sorocaba. Depois disso tem algumas coisas sendo confirmadas aos poucos. Uma que já está certa é o festival "DoSol", em Natal, dia 12 de novembro, que vai ser nossa primeira vez no nordeste - um lugar que a gente sempre quis ir e que quando lançamos o primeiro disco foi de lá a primeira galera que comprou "merch" da banda e tudo mais, então vai ser muito especial pra nós poder sentir tudo isso de perto. No mais, estamos abertos a convites. Tem muito lugar do Brasil que a gente ainda não foi e está louco para conhecer.

Catavento - City's Angels 

Sobre o autor
Luiz Gomes Otero é jornalista formado em 1987 pela UniSantos - Universidade Católica de Santos. Trabalhou no jornal A Tribuna de 1996 a 2011 e atualmente é assessor de imprensa e colaborador dos sites Juicy SantosLérias e Lixos e Resenhando.com. Recentemente, criou a página Musicalidades, que agrega os textos escritos por ele.

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