terça-feira, 23 de agosto de 2016

.: Entrevista com Roberta Estrela D'Alva, do "Manos e Minas"

"...a rua é muita coisa, a cidade é muito diversa"
Roberta Estrela D'Alva, atriz e MC

Desde junho, o programa "Manos e Minas" chegou à tela da TV Cultura totalmente reformulado. Com nova apresentadora, novo cenário e a volta da plateia, o programa apresenta as mais variadas vertentes artísticas e mais quadros de reportagem que deixam a temporada 2016 com outra cara, agora aos sábados, às 19h.

Depois de cinco anos, o "Manos e Minas" voltou a ser apresentado por uma mulher. A atriz-MC, poeta, pesquisadora, diretora teatral e musical, e ativista Roberta Estrela D’Alva, assumiu o comando da atração. Max B.O., Thaíde, Rappin’ Hood e Anelis Assumpção estiveram à frente do programa nas temporadas anteriores. 

Roberta Estrela D’Alva é atriz-MC, diretora teatral, cantora, compositora, diretora musical, pesquisadora, ativista e slammer. Membro fundadora do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, a primeira companhia de Teatro Hip-Hop do Brasil, a artista promete trazer ao programa mais vertentes artísticas, como a poesia e o próprio teatro. 

Ela também foi uma das fundadoras da "Frente 3 de Fevereiro", coletivo transdisciplinar que desenvolve ações simbólicas, produção de livros, documentários e investigações colaborativas sobre o racismo na sociedade brasileira. Em ambos os núcleos, além de atuar como atriz, diretora e MC, também desenvolve trabalhos como roteirista e dramaturga.

Nascida em 1978, na cidade de Diadema, região do Grande ABC, Roberta se formou bacharel em Artes Cênicas pela USP e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Em novembro de 2014, publicou seu primeiro livro "Teatro Hip-Hop, a Performance Poética do Ator-MC", pela editora Perspectiva.

Finalista da "Copa do Mundo de Poesia Slam 2011", em Paris, onde conquistou o terceiro lugar, ela é idealizadora do "ZAP! Zona Autônoma da Palavra", primeiro “poetry slam” (campeonato de poesia) brasileiro. É também curadora e apresentadora  do "Rio Poetry Slam", primero slam de poesias internacional da América Latina, que acontece anualmente no Rio de Janeiro, dentro da programação da "FLUPP - Festa Literária das Periferias". Recentemente, foi convidada pela "Flip" para ser a mestre de cerimônia do "Sarau de Abertura" da edição deste ano.

No teatro, Roberta foi vencedora do "Prêmio Shell 2011" na categoria "Melhor Atriz" por sua atuação no espetáculo "Orfeu Mestiço – Uma Hip-hópera Brasileira". Em 2016, foi dirigida pelo  renomado diretor americano Bob  Wilson no espetáculo "Garrincha, a Street Ópera".  Atualmente, trabalha na finalização do documentário de longa–metragem "Valendo a Vida", co-dirigido pela documentarista Tatiana Lohmman.

A mudança na apresentação acompanha diversas reformulações na estrutura do "Manos e Minas". Antes totalmente dedicado à cultura hip hop, o programa abriu espaço também para outras vertentes da arte de rua, como a poesia e o teatro. 

Atuante em pautas antirracismo e feministas, Roberta não fica presa ao estúdio, indo aos principais centros paulistas de cultura hip hop em busca de matérias, sempre dando visibilidade ao trabalho de mulheres neste meio. As reportagens de Rodney Suguita continuam presentes nesta nova fase, assim como a participação fixa da banda "Projetonave", que garante interpretações únicas das músicas dos artistas convidados. 

A partir desta temporada, o "Manos e Minas" abre espaço também para outras vertentes artísticas, como o teatro e a poesia. Qual a importância disso e como essas vertentes estão inseridas dentro da cultura urbana?
Quando a gente fala que o hip-hop é uma cultura, isso engloba muita coisa. É uma maneira de ver o mundo e de se relacionar com ele, um lifestyle. Essa maneira de viver é muito pautada pela relação com a cidade, a urbanidade, os problemas, as mazelas e as belezas de viver num lugar tão cheio de contradições como as metrópoles. Acho que as linguagens artísticas que dão voz a essas contradições se conversam e se potencializam. Não é novidade a mistura do hip-hop com o teatro, nem com a poesia. Aliás, o rap quer dizer isso: "Rhythm and Poetry", em português “ritmo e poesia”. Já tem poesia envolvida na história toda. O hip-hop é muito grande, cabe muita coisa dentro dele: teatro, música, artes plásticas, dança, política, moda, comportamento, ativismo, performance. A gênese é mestiça, feita de pedaços de muitas coisas. É inevitável que a mistura aconteça. E essa é a riqueza.

Nesta temporada, o programa voltou a ter plateia. Para você, que vem do teatro, de que forma a presença de público é um diferencial?
Nada substitui a presença humana, o corpo presente e o encontro. É isso que modifica a nossa maneira de ser, que enriquece o nosso vocabulário, nosso repertório de pensamento, de gestos e de conhecimento mesmo. Eu vivi minha vida inteira me relacionando com o público no teatro, então, para mim, é um ambiente muito feliz um estúdio de gravação com público presente em uma plateia.

Quando pensamos que, quando aberta ao público, a gravação se torna também um espaço de lazer, cultura e entretenimento para o jovem de São Paulo, qual a relevância social da volta da plateia no "Manos e Minas"?
Acho que as gravações do programa acabam sendo uma oportunidade para que as "minas" e os "manos" possam conhecer e ouvir os seus artistas preferidos ao vivo, e até mesmo conhecer novos artistas. E, se considerarmos ainda que a entrada é gratuita, já que as pessoas só precisam ir retirar os ingressos nos locais onde eles são disponibilizados, e que o teatro fica ao lado do metrô, esse acesso às gravações fica ainda mais democrático.

O "Manos e Minas" abriu espaço para músicos que não são necessariamente do rap. Você pode falar um pouco sobre isso?
O programa vai manter a forte característica que tem de trazer os artistas de rap, mas abrindo para a cultura urbana mais geral também, cultura da rua. E a rua é muita coisa, a cidade é muito diversa. O próprio hip-hop é muito grande também e foi influenciado por muitos ritmos, principalmente os ritmos da diáspora negra, o funk, o soul, o jazz e a música latina. Mas não só por isso. O hip-hop teve estreitas ligações com a cena punk, por exemplo. Ou mesmo o Afrika Bambaataa, que é considerado um dos pais desta cultura, já fazia som com trechos do Kraftwerk, uma banda alemã de música eletrônica. Acho que o critério amplia um pouquinho quando a gente traz uma artista como a Ellen Oléria, por exemplo, que tem uma obra com ligação com tudo o que a gente quer falar e discutir sobre urbanidade e juventude, mas, embora influenciada pela cultura hip-hop, e até cantando rap, não se considera uma  rapper ou uma MC.

De que forma a sua presença traz mudanças na proposta do "Manos", principalmente quando falamos da visibilidade e da representatividade da mulher dentro da cultura hip hop?
Acho que o olhar sobre o programa muda à medida que eu sempre estou de olho na presença feminina dentro do programa. Infelizmente, ainda são necessárias mulheres em posições de curadoria para que mulheres estejam representadas. A mesma coisa com os negros. O ideal seria que não fosse preciso isto, mas sim que fosse natural ter o mesmo número de homens e mulheres, e se assim não fosse, todas as pessoas estranhassem e se incomodassem com isso, não só a mulher. Mas, enquanto esse dia não chega, nós vamos marcando território. Ainda há muita reparação histórica a ser feita e muito o que conversar sobre isso. Espero que o "Manos" seja mais um espaço pra que essa discussão aconteça e essa presença se dê.

Você também faz matérias para o programa. Acredita que este também será um espaço para mostrar o trabalho de mais mulheres?
Eu acho que um olhar feminino, ainda mais na época em que a gente vive e com tudo o que está acontecendo, é sempre um diferencial em um mundo que, historicamente, é dominado por homens. Não só pela presença, mas pelo tipo de temáticas que isso traz para o programa. Sou eu que faço, por exemplo, a curadoria dos poetas e das poetas que participam de todos os programas. Claro que isso passa por um olhar feminino. Assim como por um olhar feminista, ativista e que está ligado na urgência do momento, que foi um olhar que eu vim desenvolvendo em todos esses anos dentro dos coletivos dos quais eu faço e fiz parte, que são o "Núcleo Bartolomeu de Depoimentos" e a "Frente 3 de Fevereiro".

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