sábado, 27 de maio de 2017

.: Vamos curtir A Bolha?, por Luiz Gomes Otero

Por Luiz Gomes Otero*, em maio de 2017.

Falar da Bolha é citar um momento importante para a consolidação do Rock no Brasil. Isso porque o grupo surgiu em meados dos anos 60, em uma época em que roqueiro brasileiro era tachado de bandido (como bem definiu Rita Lee nos anos 80, na hoje clássica "Orra Meu"). Tocar rock naquela época era somente para os fortes.

O núcleo central do grupo era os irmãos Cesar e Renato Ladeira, filhos da atriz Renata Fronzi e do radialista Cesar Ladeira. Essa ligação com o meio artístico contribuiu para abrir as portas dos então jovens irmãos para a música. E o rock foi a primeira paixão, é claro.


Inicialmente a banda foi batizada como The Bubbles. Mas logo depois se tornaria A Bolha. E depois de algumas alterações, a banda consolidou a sua formação apontada como clássica – Renato Ladeira (vocais, teclados e guitarra), Gustavo Schroeter (bateria), Arnaldo Brandão (baixo e vocais) e Pedro Lima (guitarra solo e vocais). Lulu Santos sempre disse que A Bolha foi uma importante fonte de inspiração para ele nesta época.

A banda lançaria alguns discos e serviria de base de apoio musical para Gal Costa, Erasmo Carlos, Raul Seixas e até mesmo Marcio Greyck, um dos ídolos da Jovem Guarda. Passaria por várias alterações na formação durante os anos 70. Renato integraria o Bixo da Seda e fundaria o Herva Doce nos anos 80. Arnaldo tocaria na banda de Caetano Veloso e fundaria o Hanoi Hanoi nos anos 80. Gustavo integraria A Cor do Som.


Em 2006 a Bolha voltou com essa mesma formação clássica para gravar um disco antológico. E a volta se deu por intermédio de um convite do diretor José Emílio Rondeau. Ele convidou Renato Ladeira para ser diretor artístico do filme "1972". Renato mostrou algumas músicas da Bolha que haviam sido censuradas no início dos anos 70 e o diretor se interessou. Foi então que Renato decidiu chamar seus velhos companheiros de banda para gravarem aquelas músicas para o filme.


Dessa reunião, surgiu a vontade de gravar um novo disco com aquele material e mais alguns covers, que acabou se tornando o álbum "É Só Curtir". Chamo propositalmente de álbum porque tem mesmo esse tipo de status. É um baita disco de rock, uma verdadeira aula de como se produzir um álbum de pop rock nacional.

O disco abre com a faixa que dá nome ao disco ("É Só Curtir"), um rock bem cadenciado e precedido de "Não Sei", ambas de Arnaldo Brandão. Aí vem a cover de "Cinema Olímpia", de Caetano Veloso, com vocal inspiradíssimo de Renato.


O que se ouve depois é uma sucessão de músicas que não te deixam com vontade de desligar o CD player em nenhum momento. Destaco as ótimas "Subentendido" (mais uma de Arnaldo), "Matermatéria" (de Pedro Lima e Antônio Cláudio Carvalho) e "Desligaram Os Meus Controles" (outra do Arnaldo, com um clima de rock progressivo).

Há ainda espaço para as covers de "Não Pare na Pista"(de Raul Seixas e Paulo Coelho) e "Você Me Acende", com participação especialíssima do amigo Tremendão Erasmo Carlos. Essa, por sinal, virou uma espécie de jam session em estúdio, tamanha a descontração de Erasmo e Renato nos vocais.


O falecimento de Renato Ladeira em 2015 tornou inviável uma nova reunião da Bolha, apesar dos demais integrantes estarem por aí na ativa e tocando como nunca. Mas é fato que Renato era o coração, o fundador, o cara que com seu vocal de timbre original e característico ajudou a dar vida para a Bolha.

Tive a grata satisfação de entrevistar Renato em 2006, na ocasião do lançamento desse disco. Ele era mesmo um boa praça. Um cara muito legal e humilde, em que pese o fato de, além de músico, ter sido produtor musical da Rede Globo por vários anos.

Ao voltarem com a Bolha em 2006, esses quatro músicos escreveram mais um capítulo na história do rock nacional. Um capitulo recheado de rock´n roll e talento. Então deixemos de conversa e vamos curtir A Bolha. Som na caixa, Renato!!


"Cinema Olímpia"

"É Só Curtir"

"Você Me Acende"

"Não Pare na Pista"


*Luiz Gomes Otero
 é jornalista formado em 1987 pela UniSantos - Universidade Católica de Santos. Trabalhou no jornal A Tribuna de 1996 a 2011 e atualmente é assessor de imprensa e colaborador dos sites Juicy Santos, Lérias e Lixos e Resenhando.com. Criou a página "Musicalidades", que agrega os textos escritos por ele.

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