sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

.: Jogos Mortais: Jigsaw - Brincadeiras complexas, personagens simples

Artigo escrito pelo cineasta Daniel Bydlowski e publicado pelo jornal Diário de Pernambuco


O primeiro Jogos Mortais, em 2004, influenciou muito o cinema de terror, especialmente o subgênero “gore”, aquele tipo de filme onde a violência na tela não somente é gratuita, mas é a principal fonte de entretenimento.

A ideia do primeiro longa, criado pelo diretor James Wan e escritor Leigh Whannell, é muito influenciada por filmes de terror de baixo orçamento, onde a locação é limitada para poder cortar custos na produção. Assim, a princípio, os criadores australianos imaginaram uma história que se passaria em um elevador. Possivelmente entendendo que um elevador iria limitar bastante o movimento dos personagens, o cenário final se tornou o famoso banheiro abandonado e assustador do primeiro capítulo da franquia.

Porém, o que deu ao filme seu sucesso foi o vilão, John Kramer, ou Jigsaw, e o modo como escolhe e brinca com suas vítimas. Seu alvo são pessoas que têm algum tipo de fraqueza, como o vício, ou que tem algum segredo negativo em seus passados. Sendo diagnosticado com câncer, o psicopata de Jogos Mortais acredita que todos precisam desfrutar a vida de maneira completa e sem malícias. Se percebe que suas vítimas não fazem isso, ele as aprisiona e as obrigam a fazer parte de um jogo onde o final objetivo, na cabeça do vilão, é ajuda-las a viver melhor. Se não conseguem passar no jogo, pagam com suas vidas.

Claro, nada disso seria possível se estas brincadeiras e jogos não fossem cuidadosamente pensados em relação ao enredo. Objetos que são simples e ordinários e que se tornam mortais são comuns em filmes de terror. O próprio famoso diretor Alfred Hitchcock era mestre em criar cenas de suspense e terror com objetos ou animais que parecem pacíficos (usou até mesmo pássaros como vilões em suas produções). Em Jogos Mortais, o que é usado para criar terror são jogos ou brincadeiras de criança, especialmente aqueles de detetive onde o propósito era solucionar um mistério para ganhar um prêmio. O problema é que, aqui, o prêmio é continuar vivendo.

Tais aspectos da obra o tornaram um filme cult e possibilitaram a criação de uma franquia. Porém, longe de manter a qualidade do original, cada filme parece ter seus altos e baixos. A nova produção, Jogos Mortais: Jigsaw, segue uma tendência que vem crescendo desde o segundo filme da série: foco menor nas vítimas e no porquê de se encontrarem em tal situação, e mais na tentativa de tornar o vilão uma lenda. Isto faz com que os jogos, tão simples e eficazes no primeiro longa, se tornem agora complexos e difíceis de acreditar. É como se Jigsaw tenha montado sua própria Disneylandia.

Isto também afeta a estrutura de enredo. Os filmes anteriores mantêm um paralelo entre os tristes prisioneiros, que não tem contato com o mundo afora, e policiais que não conseguem solucionar o mistério. Porém, a lenda de Jigsaw se torna tão forte que ele começa a aparecer em qualquer hora e em qualquer lugar. O mundo inteiro se torna um lugar para seus jogos.

Essa sequência, entretanto, não dá tanto medo ou arrepios quanto o original. Há até mesmo piadas que quebram a seriedade de cenas importantes para o nosso entendimento dos personagens. A falta de cuidado com os personagens faz com que tomem decisões que são fáceis de prever e mudam de personalidade rapidamente. 

Mesmo assim, por causa do sucesso do primeiro, Jogos Mortais: Jigsaw ainda consegue agradar seus fãs. 

Daniel Bydlowski é cineasta brasileiro e artista de realidade virtualcom Masters of Fine Arts pela University of Southern California e doutorando na University of California, em Santa Barbara, nos Estados Unidos. É membro do Directors Guild of America. Trabalhou ao lado de grandes nomes da indústria cinematográfica como Mark Jonathan Harris e Marsha Kinder em projetos com temas sociais importantes. Seu filme NanoEden, primeiro longa em realidade virtual em 3D, estreia em breve.

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