domingo, 10 de dezembro de 2017

.: Por que ler "Quincas Borba", de Machado de Assis?

Para o público leitor contemporâneo, Machado de Assis é basicamente um ironista ameno, um hábil criador de sentenças elegantes, cuja filosofia cortante, expressa em tom médio, refinado, faz da leitura de seus romances, contos, crônicas e peças de teatro uma agradável experiência. Entretanto, tudo leva a crer que poucos leitores sejam capazes de identificar a sofisticada técnica machadiana da "literatura da sala de estar", onde costuma ocorrer, inclusive, a maior parte de suas tramas. 

Por meio dela, o autor é capaz, de acordo com a precisa definição de Antonio Candido, de "sugerir as coisas mais tremendas da maneira mais cândida" ou investigar o que está por trás da aparência de normalidade, ou insinuar que o ato excepcional é normal, e anormal seria o ato corriqueiro, ainda segundo o crítico.

Entre os principais temas de sua obra, Machado dedicou-se a investigar os limites entre a razão e a loucura, sob a ótica de que a alienação psiquiátrica equivale quase sempre também à alienação social e moral. No caso de Pedro Rubião de Alvarenga, protagonista de "Quincas Borba", a loucura assume o papel de transgressora da ordem institucional e social (por meio da qual o personagem nega as noções clássicas de sujeito e história), levando o leitor à reavaliação do modelo racionalista do pensamento ocidental que impera até os dias de hoje entre nós.

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