quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

.: Exposição na Galeria Lume apresenta poética de Carlos Nader

Em cartaz a partir de 31 de janeiro, mostra AUTO exibe trabalhos do cineasta paulistano realizados em parceria com seu filho Teo, portador de autismo



Depois de uma década dedicada ao cinema, Carlos Nader retorna a um espaço expositivo, a Galeria Lume, que a partir de 31 de janeiro de 2018 apresenta a exposição AUTO. Nela, o cineasta paulistano de 53 anos que começou sua carreira na videoarte dos anos 80/90 reúne agora um conjunto de seis obras – três delas inéditas, frutos de uma parceria inusitada com seu filho Teo, de 17 anos, que é portador de autismo.

“Ao longo dos anos, fui percebendo que o Teo, mais que ‘autista’, é ‘artista’, um artista em tempo integral. O mundo é antes de tudo uma experiência estética para ele. A apreensão da vida é essencialmente plástica, uma fruição constante de imagens, sons, cheiros, movimentos e ritmos. Quando eu entendi isto, entendi também que era hora de eu mesmo voltar para as artes plásticas”, comenta o cineasta.

Em cartaz até 17 de março, a exposição também traz uma reflexão sobre o próprio ato de criar uma obra audiovisual, incluindo várias questões já características do trabalho cinematográfico de Nader. O que é filme e que é real? O que o diferencia um filme da chamada vida real? Que estruturas gramaticais tornam um filme autônomo? Que artifícios artísticos o fazem, ele também, real?

Nader acredita que tais questões, por serem metalinguísticas, também fazem parte do universo do autismo, “afinal o prefixo ‘auto’ significa ‘relativo a si próprio’. Não é coincidência nem exagero ver nos meus trabalhos uma espécie de estética autística. Eles têm circularidade, reiteração, repetição. Eles não diferenciam o concreto do conceitual, o estrutural do conjuntural e nem mesmo a imaginação da paisagem. Essas características são muito parecidas com aquelas descritas na própria síndrome do autismo”.

Segundo Nader, desde que o autismo de Teo foi diagnosticado há cerca de 15 anos, ele tem sido cobrado a fazer um filme sobre o assunto. Não convencido de que esse seria o formato ideal para tratar da condição de uma pessoa “que não gosta sequer de ser fotografada”, o cineasta preferiu estabelecer uma ponte ainda mais larga com o universo do filho, para trazê-lo a público. 

Estabelecer a ponte significa criar uma parceria possível com alguém que tem autismo. Primeiro, Nader propõe olhar o mundo com os olhos de Teo. Depois, tenta dividir com ele as etapas do processo de criação. “Tem um lado complicado, porque o Teo nem entende a ideia de produzir um objeto para o futuro. Tudo para ele é presente, fruição, experiência. Mas também tem um lado simples porque, pai e filho, nós já estamos um dentro do outro.”
Na prática, o encantamento do garoto pela chuva escorrendo por uma claraboia de vidro e refletindo uma imagem de vídeo serviram, por exemplo, como base da criação da instalação Cachoeira (2017), presente na exposição. A tela translúcida que siderava e protegia Teo das tempestades metamorfoseia-se em um suporte de projeção para vídeo e água.

Já em Espaço Tempo (2017), um vídeo de dois canais mimetiza a forma com que o adolescente assiste diariamente aos mesmos filmes há 15 anos, em diferentes telas, procurando absorvê-los quadro a quadro. Na obra exposta, uma das telas exibe 8 segundos do lançamento de um foguete em loop, enquanto a outra tela é dividida em 240 partes para mostrar cada quadro do vídeo no mesmo espaço e ao mesmo tempo.

“Ao mesmo tempo em que trata da circularidade cinematográfica da vida, Nader a revela a partir de um olhar peculiar, um mundo carregado de sensações únicas, próprias, particulares”, aponta Paulo Kassab Jr., curador da exposição. A mostra que chega à Lume toma como mote justamente esta dualidade encarnada em AUTO:  tanto algo que corre por si próprio,  é autônomo, quanto a visão de cada sujeito sobre essa jornada – no caso dos trabalhos inéditos, o mundo visto pelos olhos de Teo.  

A questão da alteridade também é explorada em Cross, vídeo produzido em 2004. O trabalho mostra corpos nus, de diferentes etnias, que se alternam constantemente entre feminino e masculino, passando sem cortes por vários estágios intermediários entre as diferentes raças e gêneros.

Em Vento Luz III, o artista renova uma instalação feita para uma exposição do MAM-SP, em 1999, em que o rodopio constante de um bailarino virtual gerava uma ventania real. Na versão atual, o bailarino é substituído por personagens nus e igualmente rodopiantes de Eadweard Muybridge, fotógrafo inglês do século XIX que criou as primeiras imagens cinemáticas da História.

“É quase inacreditável que num tempo que era sinônimo de caretice, a era vitoriana, o inventor daquilo que viria a ser chamado de cinema já usasse homens, mulheres e crianças nus sem medo das mentes que projetam algum pecado nesta atitude. E é ainda mais inacreditável estarmos discutindo isso em 2017!”, exclama Nader, referindo-se ao fantasma da censura que volta a assombrar o mundo das artes.

Sessão pipoca: Durante o período expositivo, diversos de seus filmes serão exibidos semanalmente na própria galeria. Nader, que se consolidou como videomaker nos anos 1990, possui uma filmografia reconhecida por uma poética sensível, que perpassa temas universais.

Em Homem Comum, por exemplo, o documentarista acompanha por vinte anos a vida do caminhoneiro Nilson de Paula. Diretor e entrevistado se questionam sobre a falta de sentido da vida. Nas palavras do teórico José Miguel Wisnik, no filme, “o vivido pode ser olhado como uma estranha obra de arte, e a arte como uma estranha forma de vida”.

Já em Paixão de JL, Nader desenvolve um registro poético em torno da figura do artista plástico José Leonilson (1957-1993), de quem foi amigo pessoal. O longa se baseia em fitas que o artista gravou, como uma espécie de diário, nos últimos anos de sua vida. As opiniões de Leonilson sobre assuntos distintos, como política e amor, são entrelaçadas por imagens de suas obras.

Um artista em constante transição: Carlos Nader iniciou sua carreira na década de 1980, quando ainda se consolidava o mercado de videoarte no Brasil. De lá pra cá, produziu cerca de 180 obras entre longas, curtas e instalações multimídia. Entre seus temas principais estão a questão da identidade, a sensação do tempo e a relação do homem com a câmera em meio a uma era extremamente midiatizada.

Seu primeiro longa-metragem, Preto e Branco, estreou em 2004, sendo seguido por obras consagradas como Pancinema Permanente (2008) e os dois filmes citados anteriormente. Com as três obras, tornou-se o único cineasta tricampeão do É Tudo Verdade, mais importante festival brasileiro de documentários. Todos os trabalhos integram ainda a lista dos “Cem melhores documentários brasileiros de todos os tempos”, concluída no ano passado pela Associação Brasileira dos Críticos de Cinema.  

Seus vídeos foram ainda exibidos em museus e centros culturais de mais de 20 países – a exemplo do MOMA, em 1999; o Guggenheim, em 2001; e o Tate Modern, em 2007. Entre os prêmios que recebeu estão o Mondial de la Vídeo de Bruxelles, de 1993; o Videobrasil, em 1996; e o Internationaler Videokunstpreis da ZKM, em 1998, na Alemanha.

Auto, individual de Carlos Nader
Local: Galeria Lume
Endereço: Rua Gumercindo Saraiva, 54 – Jardim Europa, São Paulo
Abertura: 31 de janeiro, a partir das 19h
Período expositivo: de 1º de fevereiro a 17 de março
Visitação: de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h | sábados, das 11h às 15h
Telefone: (11) 4883-0351

Programação de filmes 
Todas as quintas feiras, às 16h30
Capacidade máxima: 10 pessoas por sessão.

01/02 | Tela + Pan-Cinema Permanente
08/02 | Tela + Homem Comum
22/02 | Tela + A Paixão de J.L
01/03 | Tela + Pan-Cinema Permanente
08/03 | Tela + Homem Comum
15/03 | Tela + A Paixão de JL

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