sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

.: Crítica de "Três Anúncios Para Um Crime", por Daniel Bydlowski

*Artigo escrito pelo cineasta Daniel Bydlowski para o jornal A tarde


Faz tempo que um filme não demonstra a complexidade e originalidade de "Três Anúncios Para Um Crime". O roteiro foi escrito por Martin McDonagh, o mesmo cineasta por trás de Na Mira do Chefe, Six Shooter e Sete Psicopatas e um Shih Tzu. Vindo do teatro, McDonagh possui um cuidado extraordinário no modo em que desenvolve seus personagens e o mundo no qual vivem. Esta característica dá às produções do diretor um tom realista tão forte que faz com que o espectador se pergunte se suas histórias são baseadas em fatos reais.

"Três Anúncios Para Um Crime" é um destes filmes. Seus personagens são tão complexos e reais que fica mais fácil acreditar no enredo deste do que no de outros filmes atuais que são baseados em livros famosos ou ainda são biografias. Claro, tal talento de McDonagh, na escrita de diálogos e cenas marcantes, é fortemente ajudado por grandes atores que emprestam suas vozes às obras do diretor.

No caso de Três Anúncios, é Frances McDormand que da vida à personagem Mildred, uma mãe que se sente não somente culpada pela morte de sua filha, mas também obrigada a encorajar a polícia a achar o assassino (mesmo que este não tenha deixado nenhuma pista). Assim, Mildred, mesmo com problemas financeiros, consegue arranjar dinheiro para pagar anúncios de outdoor, que acusam a polícia local de não se esforçar o quanto pode no caso.

Isto causa um caos em uma área pequena de Missouri, especialmente porque alguns policiais, como Willoughby (Woody Harrelson), são respeitados ou até mesmo reverenciados na cidade. Embora esta premissa já seja o suficiente para criar uma luta entre a protagonista, que quer encontrar algum desfecho para seu sofrimento, e a cidade, McDonagh vai muito além disso.

O motivo de Três Anúncios ser tão realista é o fato de nenhum personagem ser do bem ou do mal. Todos são complexos. Os policiais realmente são sinceros quando dizem que não há mais o que fazer, visto que o culpado não deixou nenhum vestígio que possa identifica-lo. Ao mesmo tempo, entendemos os sentimentos de Mildred e torcemos para que esta consiga seu objetivo.  Este dilema onde todos parecem ter um certo grau de razão dá bastante suspense ao filme e deixa qualquer clichê difícil de aparecer.

Porém, McDonagh não para por aí. Muitas cenas mostram os lados mais obscuros da protagonista. Por exemplo, Mildred e sua filha não tinham uma relação amigável. Elas brigavam o tempo todo e foi depois de uma destas brigas que sua filha sai de casa para não voltar mais. E esta relação imperfeita torna o sentimento de culpa de Mildred insuportável.

O tema do filme é a perda e como esta pode afetar o ser humano de maneira intolerável. Com um alto grau de conhecimento da psicologia humana, McDonagh mostra que os anúncios de outdoor não são apenas uma estratégia de Mildred para que os policiais trabalhem no caso de sua filha. Muito além disso, os anúncios, durante o decorrer do filme, se tornam sua filha. E, assim, Mildred fará de tudo para conserva-los o maior tempo possível.

Daniel Bydlowski é cineasta brasileiro e artista de realidade virtual com Masters of Fine Arts pela University of Southern California e doutorando na University of California, em Santa Barbara, nos Estados Unidos. É membro do Directors Guild of America. Trabalhou ao lado de grandes nomes da indústria cinematográfica como Mark Jonathan Harris e Marsha Kinder em projetos com temas sociais importantes. Seu filme NanoEden, primeiro longa em realidade virtual em 3D, estreia em breve.

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