terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

.: "Me Chame Pelo Seu Nome" não passa um por cento da emoção do livro


Por Helder Moraes Miranda, em fevereiro de 2018.

CONTÉM SPOILERS


Que me desculpem os entusiastas do filme "Me Chame Pelo Seu Nome", mas este não passa nem um por cento da emoção do livro de André Aciman, publicado no Brasil pela editora Intrínseca. 

Embora tente ser fiel à obra escrita, o longa-metragem, que tenta fugir do melodrama, é minimalista a ponto de tornar Elio, o protagonista de 17 anos, apático demais. O personagem é uma espécie de Bella Swan (a humana que se apaixona pelo vampiro de "Crepúsculo") de calças. Ou seja, sempre está sonado, inexpressivo e, cá entre nós, extremamente chato. Não entendi até agora a indicação de Timothée Chalamet, o ator que o interpreta, ao título de Melhor Ator.

Armie Hammer, que brilhou como um espião em "O Agente da Uncle", interpreta o professor Oliver, interesse amoroso do garoto. Mas não é solar como o personagem retratado no livro embora, na prática, seja o mesmo. Na verdade, é outro chato que, no filme, brinca com os sentimentos do garoto, como se ele fosse apenas um "caso de verão". Quando for embora, deixará toda a sujeira para o garoto limpar, inclusive em relação à bagunça que fez na cabeça dele. Porque quem fica é quem sofre com as lembranças.

Não estou dizendo, com isso, que quem não leu o livro está impossibilitado de gostar do filme. Mas creio ser um pouco mais complicado para quem leu a obra de André Aciman ter alguma empatia pelos personagens. Embora um seja baseado no outro, as obras não se complementam, nem conversam. O filme é um espelho sem alma do livro, e bem mais fraco do que a obra original. Ao contrário do livro, em que o menino é uma força da natureza e constrói uma história em que o público torce pelo romance dos personagens. 

A diferença básica é que no filme, aparentemente, o personagem quer fazer sexo, encontra facilidade no professor que está hospedado na casa dos pais e no quarto ao lado e une o útil ao agradável. No livro, ele se apaixona pelo professor, sofre, foge, passa por uma fase de autoaceitação para, somente depois, ser correspondido e se entregar ao sexo e ao amor. E, para isso, ele passa por cima de tudo: além de não hesitar em trair a namorada e em abandoná-la, também perde o medo de ser descoberto pelos pais. 



No filme, após um tempo calado, o garoto entra em uma fase sexual e sai transando com uma namoradinha para trocá-la pela relação clandestina e sem sentimento com o professor. Parece só sexo casual. Há outro impecilho para o filme, o idioma, que mistura inglês com italiano. No livro, funciona bem, é até poético, mas no longa-metragem além de ficar chato, torna as cenas confusas e até mesmo um pouco forçadas. 

Para quem quer ver as cenas de sexo estreladas entre Elio e Oliver, há uma bundinha aqui, outra acolá, entre um idílio amoroso e outro. No livro,  a partir do campo imagético, as cenas são mais fortes, inclusive a do pêssego, para quem curte passagens mais extremas. 

Se ganhar o Oscar, é uma tentativa de corrigir a injustiça com "O Segredo de Brokeback Mountain" em 2006. Mas se "Me Chame pelo Seu Nome" vale por alguma coisa, é pelo diálogo final entre o garoto e o pai, que dá a entender que estava interessado pelo amante do filho, dizendo aquela mensagem mais que batida de que se deve aproveitar a vida enquanto é tempo. Batida, mas com emoção. No final das contas, ambos devem seguir a linha de homossexuais enrustidos, pelo menos até o próximo filme, já que terá uma continuidade prevista para 2020. 

Até nisso o livro é melhor, porque mostra o que acontece com os personagens anos depois. Enquanto o filme é um rascunho, o livro é uma experiência completa. Então, se você leu o livro antes, possivelmente não irá gostar do filme. Mas se assistiu ao filme e quer ler o livro, deve entender muitas questões que não foram contempladas no longa-metragem. E poderá entender a emoção transmitida no livro para, até, conseguir torcer para os personagens do filme.



Filme: "Me Chame Pelo Seu Nome" 
("Call Me By Your Name", título original)
País: Itália, França, EUA, Brasil
Classificação: 14 anos
Estreia: 18 de Janeiro de 2018
Duração: 130 min.
Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: James Ivory , Luca Guadagnino , Walter Fasano

Elenco: Timothée Chalamet (Elio Perlman), Armie Hammer (Oliver), Michael Stuhlbarg (Mr. Perlman), Amira Casar (Annella Perlman), Esther Garrel (Marzia),
Victoire Du Bois (Chiara), Vanda Capriolo (Mafalda), Antonio Rimoldi (Anchise), Elena Bucci (Art Historian), Marco Sgrosso (Nico), André Aciman (Mounir) e Peter Spears - (Isaac).
Gênero: Drama

Distribuidora: Fox Film do Brasil

*Helder Moraes Miranda escreve desde os seis anos e publicou um livro de poemas, "Fuga", aos 17. É bacharel em jornalismo e licenciado em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura, pela USP - Universidade de São Paulo, e graduando em Pedagogia, pela Univesp - Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Participou de várias antologias nacionais e internacionais, escreve contos, poemas e romances ainda não publicados. É editor do portal de cultura e entretenimento Resenhando.

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