quarta-feira, 7 de março de 2018

.: Crítica: "Malhação - Vidas Brasileiras" empodera a figura do professor


Por Helder Moraes Miranda, em março de 2018.

Em um momento de desvalorização do professor, "Malhação - Vidas Brasileiras" se faz necessária. Após uma temporada de sucesso, "Malhação - Viva a Diferença", o seriado juvenil agora recomeça com uma história focada em uma protagonista adulta, a professora Gabriela, interpretada por Camila Morgado. Vinda de papéis densos, como a Manuela da minissérie "A Casa das Sete Mulheres", outros nem tanto, como uma das mulheres de Cadinho na novela "Avenida Brasil", e imortalizada nos cinemas como a revolucionária Olga Benário, Camila consegue trazer uma mistura de maturidade e jovialidade que dão o tom da personagem.

O primeiro capítulo foi focado nela, uma professora de língua portuguesa, que é apresentada ao público em uma aula sobre leitura. "Quando todo mundo pensou que a leitura estava acabada, surgiram as redes sociais", enfatiza a heroína que, já no primeiro episódio, arrisca-se em uma altura considerável para conversar com uma aluna que teve fotos de nudez espalhadas na internet pelo namorado. Mais atual, impossível. 

Gabriela, a professora, tem uma vida estável, trabalha em uma escola particular aconchegante, em que é  acolhida e respeitada pelos alunos e colegas de profissão e mantém uma vida aparentemente feliz, e bem desorganizada, com o marido e três filhos. Mas não é tão feliz assim pois ela pretende  largar tudo o que conquistou para oferecer a jovens carentes uma educação de qualidade. Meio piegas e quase inconcebível nos dias de hoje, principalmente vindo de alguém que aparenta ser tão dedicada e disposta a criar vínculos com os alunos que já tem. Os adolescentes, aparentementes, são mais adolescentes do que os de "Malhação - Viva a Diferença", que apresentavam dilemas e questões de temática adulta, característica que, nessa temporada, parece que irá se "encaixar" mais na idade dos personagens.

Há todo um romantismo em cima da profissão do professor e, em tempos em que este profissional é cada vez mais desvalorizado pelas escolas, pelos pais de estudantes e até por alunos, é louvável que um programa de televisão na maior emissora do Brasil, cuja audiência maciça é de adolescentes dê, a um professor, mesmo que na ficção, o papel de protagonista. Pode refletir, e muito, no comportamento deles enquanto estudantes em sala de aula.

Também se faz necessária porque, pelas brechas das novas leis trabalhistas propostas pelo governo do presidente Michel Temer, a maioria das escolas, principalmente as públicas, não querem pagar um valor justo e retiram direitos conquistados há tempos. Ou quando governos espalhados pelo país tomam atitudes que sucateiam a educação, que já está tão precária. Há colégios particulares que nem pagam professores em dia, outros nem atrasados remuneram os seus funcionários... Sem contar os casos de agressão a docentes que podem ser vistos de tempos em tempos nos noticiários.

Conectada com esses retrocessos e também com os assuntos do momento, "Malhação - Vidas Brasileiras", em seu episódio de estreia, mostrou um político que recebeu propina sendo preso e, como consequência, a tentativa de suicídio de uma estudante. Mas a cena mais marcante foi a troca de olhares entre a professora Gabriela e um adolescente que estava praticando assaltos em um arrastão num túnel carioca. Quando os olhos dele se cruzam com os dela, o rapaz congela, para o que está fazendo... e sai correndo em sentido contrário, como se tivesse visto alguém que conhecesse há muito tempo. Teria ficado muito mais forte se ele fosse um ex-aluno dela, a autora Patrícia Moretzsonh perdeu essa oportunidade e talvez seja esse o único furo de um capítulo perfeito.

Apesar do nome "Vidas Brasileiras" é a primeira vez em 24 temporadas que"Malhação" adapta uma novela estrangeira. Trata-se da canadense "30 Vies" ("30 Vidas", em tradução livre) que,  com 660 episódios, foi exibida em 11 temporadas e, a cada ano, trocava de protagonista e recebeu quatro indicações ao Emmy Internacional, sempre abordando temas espinhosos e polêmicos.

A audiência na internet, no entanto, não parava de reclamar. Compostos, em sua maioria, por adolescentes "mimadinhos" regados à pêra com leite, esses adolescentes nem se permitiram em conhecer a nova temporada e já foram tecendo críticas, principalmente aos atores que interpretaram novos alunos do colégio Sapiência. Queriam até fazer campanha exigindo que a Rede Globo fizesse uma série derivada de "Malhação - Viva a Diferença", que pregava a tolerância e respeito ao próximo. Pelo visto, eles não aprenderam nada.




*Helder Moraes Miranda escreve desde os seis anos e publicou um livro de poemas, "Fuga", aos 17. É bacharel em jornalismo e licenciado em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura, pela USP - Universidade de São Paulo, e graduando em Pedagogia, pela Univesp - Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Participou de várias antologias nacionais e internacionais, escreve contos, poemas e romances ainda não publicados. É editor do portal de cultura e entretenimento Resenhando.

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