sábado, 21 de julho de 2018

.: Crítica: "Os Monólogos da Vagina" deveria ser obrigatória para todos


Por Helder Moraes Miranda, em julho de 2018.

Há 18 anos em cartaz no Brasil, "Os Monólogos da Vagina" já falava de coisas que só estão sendo observadas e exteriorizadas agora, por pessoas que se sentem extremamente "desconstruídas" ao falar sobre feminismo, militância e sororidade feminina. 

A peça, escrita por Eve Ensler, com direção de Miguel Falabella, começou no Brasil com as atrizes Zezé Polessa, Claudia Rodrigues e Vera Setta e o patrocínio da marca de lingeries Duloren. Hoje, vem se sustentando ao longo dos anos sem patrocinadores, só com a divulgação boca a boca do público. Pode ser vista em São Paulo no Teatro Gazeta, na avenida Paulista, às 18h de sábados e domingos, quando não está excursionando pelo Brasil.

"Os Monólogos da Vagina" deveria ser obrigatória para homens e mulheres, o quanto antes e o mais urgente possível. Homens deveriam assistir para aprenderem a valorizar as mulheres e, do outro lado, mulheres deveriam assistir pelo mesmo motivo, em relação a si mesmas - com o acréscimo de não terem vergonha do próprio corpo.

A versão original, que começou somente com a autora - fazendo um monólogo - no circuito off-Broadway em 1997 e fez um sucesso arrebatador dentro e fora dos Estados Unidos iniciou uma tendência chamada neofeminismo, que é caracterizada pelo resgate da feminilidade e pela redefinição da condição de mulher como sexo-precioso, algo que merece ser cuidado, não pela fragilidade, mas pelo seu valor.

No palco, três atrizes brilham em cena - uma das curiosidades da versão brasileira, já que Falabella optou por um trio ao invés de uma só em cena. Revezando-se em diferentes tipos de mulheres, Cacau Melo, Maximiliana Reis e Sônia Ferreira na formação atual - todas talentosíssimas - fazem rir e emocionam com muita facilidade. Mas não falam somente da vagina, como sugere o título da peça teatral, ela é somente um pano de fundo para abordar temas recorrentes aos do universo feminino, como sororidade, sexualidade e, até, castração.

A mesma vagina que identifica o sexo feminino também pode dar prazer e dar a luz a outros seres, ser instrumento de libertação mas também de controle, como em uma das cenas em que uma menina, interpretada por uma delas, revela que levou um tapa na cara aos 12 anos ao contar para a mãe que estava menstruada. 

No ofício de atriz, elas contam histórias de pessoas que poderiam ser próximas a você, ao espectador que assistiu do outro lado da plateia e a elas mesmas - será que alguma delas vivenciou alguma situação parecida à que encenou durante aquela uma hora e meia de espetáculo? Possivelmente, sim... Possivelmente, não... 

O tempo diante delas voa, porque elas - em diferentes cenas - se tornam meninas dinâmicas que brincam de corda, mulheres interessadas em saber como é o orgasmo, lésbicas sedutoras querendo sexo casual e mães - todas interligadas por um único elemento que não é somente a vagina, mas também a emoção. 

De certo modo, Cacau, Maximiliana e Sônia, em um mundo cheio de problematizações, militam de uma maneira muito natural e eficaz. Essas atrizes dão um banho de autoestima às mulheres que as assistem e conscientizam os homens de uma maneira muito sutil. Prestam um serviço a quem as assiste e, de alguma maneira, conseguem melhorar o mundo.

"Monólogos..." é um espetáculo que diverte e emociona, mas também faz refletir sob a condição feminina sem ter aquele didatismo que afasta a mais interessada das almas. Tenho certeza de que todos, independentemente do sexo com que se identificam, saíram melhores do que entraram antes de assistir a essas grandes mulheres, operárias da arte. 


Serviço
O Teatro Gazeta fica na Avenida Paulista, 900 - Térreo - Bela Vista - São Paulo.
A bilheteria do Teatro Gazeta funciona de terça-feira à domingo, das 14h até o início do último espetáculo. Vendas dos ingressos neste link.


*Helder Moraes Miranda escreve desde os seis anos e publicou um livro de poemas, "Fuga", aos 17. É bacharel em jornalismo e licenciado em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura, pela USP - Universidade de São Paulo, e graduando em Pedagogia, pela Univesp - Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Participou de várias antologias nacionais e internacionais, escreve contos, poemas e romances ainda não publicados. É editor do portal de cultura e entretenimento Resenhando.

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2 comentários:

  1. Todo a peça é um espetáculo. Fisga pelo texto simples e fabuloso, que permite total identificação. Em tempo, o final é um show de emoção. De mim, tirou lágrimas e fez arrepiar. Imperdível!!

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  2. Assisti, mesmo sendo homem. Peça importante, educativa.

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