sexta-feira, 27 de julho de 2018

.: Crítica de "Um Lugar Silencioso", filme de deixar o coração na mão

Por: Mary Ellen Farias dos Santos
Em julho de 2018


Mantenha-se calado e distante do que faz barulho. Do contrário, a morte é uma certeza. "Um lugar silencioso", dirigido e protagonizado por John Krasinski é enxuto e impactante. Ao longo de seus quase 91 minutos, a trama cresce sem esconder o jogo do que está por vir e até revela, nos 10 primeiros minutos, o que é a grande ameaça.

Inicialmente, em um ambiente de final dos tempos, um mercado é percorrido pela câmera, enquanto silhuetas transitam pelos corredores. Assim é a apresentação da família Abbott. Todos estão lá, em busca dos medicamentos da farmácia para cuidar de Marcus (Noah Jupe, de "Extraordinário"), filho do meio que está adoentado


Lee (John Krasinski) e Evelyn (Emily Blunt), responsáveis por três filhos, sobrevivem há 89 dias, numa fazenda do Meio-Oeste, nos Estados Unidos. O mais novo, Beau (Cade Woodward), sem entender bem o que acontece, acredita que um foguete ajudará a família a escapar do planeta Terra. 



Ledo engano! É justamente o primeiro encontro do menininho com o objeto de brinquedo que quase coloca a vida de toda a família em risco. Tal qual uma tragédia anunciada. Como nem tudo pode ser remediado, é o barulho do brinquedinho que comove o público milésimos de segundos antes de surgir o letreiro compondo o nome do filme com areia. Seria um lembrete de que "do pó viemos, ao pó retornaremos?". Talvez!

A produção estrelada brilhantemente por Emily Blunt ("A Garota No Trem") e John Krasinski (série "The Office"), traz os acontecimentos de maior impacto, claramente, conectados às sequências de cenas, sempre estampando as consequências. Nada aparece na tela por acaso, principalmente quando a câmera fecha em close, como que "dizendo": "Eu avisei!". 


Além de estabelecer a passagem de tempo, os dias, com inscrição na cor branca na tela negra, contribuem para a evolução do enredoUm simples exemplo é do dia em que um prego, por descuido, é tirado do lugar. Contudo, a peça ressurge e faz a trama sacudir os ânimos de quem assiste.


A presença do aparelho auditivo, desde o início, evidencia que Regan (Millicent Simmonds, que é surda na vida real) está presa num mundo sem som. Por vezes, o filme que trabalha com a claridade e a quase total falta dela, também coloca o público na pele da menina surda-muda. Regan guia o público a se atentar nas reações de quem está por perto.


Os editores de som do filme, que criaram um efeito para que o público ouvisse exatamente o que os atores ouviam em cada cena, deixam transparecer que o trabalho foi bem executado. Vale destacar a emocionante discussão de pai e filha por meio da linguagem de sinais. Tudo é embalado por um delicado som ao fundo, acrescido da maravilhosa edição de imagens, com o verde brilhando pela luz do Sol, dando um toque de arte no filme que é um tremendo suspense. 

Calma! Não imagine que seja um filme arrastado ou sonolento. Apesar de trabalhar muito com o silêncio e a linguagem de sinais, há espaço para uma música romântica. Afinal, os pombinhos tornam a aumentar a família. E um dos pontos altos de "Um lugar silencioso" é justamente o parto -com direito a mãozinha no vidro, estilo "Titanic", mas ensanguentada. Em tempo, a cena da banheira foi gravada em apenas uma tomada.

A importância de uma família estruturada é tratada em "Um lugar silencioso", mostrando uma figura paterna que se doa diante dos maiores riscos, em proteção de esposa e filhos. Em contrapartida, ainda sobram cenas de deixar o coração na mão, protagonizadas pelos filhos que ficam com a vida por um fio diante dos vilões mortais que odeiam barulho.




O longa segue na contramão do também fabuloso suspense "Os outros", que afastava as crianças da luz. Nesse é preciso ter muita claridade na mente para entender a importância da comunicação na família e que, diante da ameaça de morte, a união é que os mantém vivos. O longa também remete a "Armageddon", principalmente nas cenas finais, seja pelas câmeras exibindo tudo o que acontece fora e o fim de um dos personagens.

Com roteiro de John Krasinski, Scott Beck, Bryan Woods, "Um lugar silencioso" tem uma pegada estilo "Sinais", mas com qualidade superior. Embora a situação seja até "estranha", é possível se imaginar num mundo silencioso. Quantos sobreviveriam? Justamente em tempos de famosinhos da internet falando -e até gritando ao quatro ventos-, deliberadamente e sem conhecimento, o que surge à cabeça, em busca de seguidores levianos!

Essa tônica de "Um lugar silencioso", é extremamente provocante, além de 
atual. O silenciar obrigatório -pela sobrevivência- reflete o tiranismo da ditadura que coíbe a liberdade de expressão, mas implica na introspecção, o que permite uma autoanálise do que é será falado, exteriorizando apenas o necessário e no lugar adequado.

Afinal, "Um lugar silencioso" deixa bem claro que a surdez permite entender a fraqueza deles -e a dos outros!

Filme: Um Lugar Silencioso (A Quiet Place, 2018, EUA)
Direção: John Krasinski
Estreia: 5 de Abril de 2018 (Brasil) 
Duração : 90 minutos
Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos
Gênero: Drama, Terror, Thriller, 
Elenco: Emily Blunt (Evelyn Abbott), John Krasinski (Lee Abbott), Millicent Simmonds (Regan Abbott), Noah Jupe (Marcus Abbott), Cade Woodward (Beau Abbott), Doris McCarthy (Mulher na floresta), Leon Russom (Homem na floresta)


*Mary Ellen Farias dos Santos é criadora e editora do portal cultural Resenhando.com. É formada em Comunicação Social - Jornalismo, pós-graduada em Literatura e licenciada em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos. Twitter: 
@maryellenfsm




Trailer

Compartilhar no WhatsApp
← Postagem mais recente Postagem mais antiga → Página inicial

Um comentário:

  1. Que doideira de filme. Aquele bicho dá medo e deixa a emoção atacada.

    ResponderExcluir

Deixe-nos uma mensagem.

Tecnologia do Blogger.