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O
rato da net, a sua rádio clandestina
Por:
Marcelino Rodriguez*
Em dezembro de 2007
Recebo uma mensagem de gratidão de uma amiga a quem mandei os versos de
Adélia Prado, pela rede. Diz-me ela que não conhecia a obra da poetiza
mineira. Recebo mensagens de todo tipo: esotéricas, de carinhos, de
conforto, solidariedade, de ciúmes e até promessas de amores, que,
realizados ou não, não deixam de ser manifestações da vida.
Às vezes também, alguém que não compreende as minhas intenções, na maioria
das vezes, nobre, me diz algum desaforo, ao qual acho graça ou revido. E sou
gratíssimo a rede por tudo que ela me tem dado: muito mais diamantes que
poeira, mais trigo que joio.
Nunca gostei muito de aparecer em público e nem que soubessem minhas boas
intenções, já que as más ficam sempre em segredo. E acredito que um dos meus
sonhos mais recônditos seria fazer um programa de rádio onde eu pudesse
fazer exatamente o que estou fazendo pela rede, compartilhando a vida
coletiva sem expor-me pessoalmente. Divulgando culturas e maravilhas que
descobri ao longo da vida.
Dou-me bem com livros, mas atrapalho-me com as pessoas, muitas vezes (ou as
atrapalho também). Outras vezes, sou chato porque escrevo e quem escreve
sempre tem algo a dizer a mais ou a menos do que sente da vida. Além de
querer se vender. Nunca deixa a vida em paz; é um estranho revide! Aqui não,
tudo é gratuito, como no projeto inicial de Deus! Espelho da vida, na rede
circula de tudo! Altas e baixas vibrações, e nós, internautas, formamos
realmente uma comunidade especial e privilegiada, já que muita gente não tem
meios de possuí-la ou sequer sabe de sua existência.
Às vezes esquecemos que o mundo é grande e pensamos, ainda que breve, que
todos gozam desse privilégio que gozamos de sermos internautas. Não!, Deus
escolheu-nos, podem acreditar! Somos nós que aqui estamos que devemos
aproveitar essa oportunidade para adquirirmos e distribuirmos cultura,
informação e entretenimento.
Embora
mundial, a rede tem de sobra alegrias sul-americanas que vem da nossa
cultura, literatura e comunidades. Aqui na rede podemos voltar a redescobrir
nosso continente, que anda esquecido da mídia de massas alienante, pois
influenciada pelo mercado hegemônico externo, quase nunca inteligente.
Refiro-me aos "Rambos" do norte.
Aqui temos certeza que não é a economia que produz qualidade, mas a
verdadeira democracia de expressão, do qual a rede é uma maravilhosa
pioneira, em todos os sentidos! Tenho deliciado-me redescobrindo nossos
autores e valores, nossa história, nossa labutas ideológicas e políticas.
Voltei a sentir-me cidadão, pois aqui, bem ou mal, expresso-me e compartilho
a vida, com anônimos e conhecidos, todos igualmente queridos.
Voltei a sentir-me vivo e gente humana, já que pelas ruas e relações atuais
da vida das metrópoles somos todos anônimos e solitários; andamos com pressa
e às vezes assustados. Aqui não, estamos protegidos e articulados. Bem,
finalizando, de vez em quando eu mandarei, além das mensagens dos outros,
também as minhas (mais raramente, pois sou bissexto por princípio).
Não precisam dar-me nada por isso; se não gostarem ou estiverem ocupados,
deletem-me ou deixem para outra hora. Se quiserem falar ou revidar, por
favor, façam também! E confiem em mim! Estou apenas realizando um velho
sonho, o de ter um meio que possa falar sem ser visto, como o personagem de
um filme que vi uma vez (não lembro o nome), que distribuía esperanças de
sua rádio clandestina, localizada na sua cidade em ruínas. Só que ele dizia
que "ele era a esperança, que sua cidade era uma maravilha, e com sua tenaz
insistência em não aceitar a derrota (ele era meio pirado), acabou servindo
de farol para alguém que procurava um sinal de vida fértil na cidade
prometida pelo tal radialista".
Uma
vizinha disse-me que eu pareço um Rato de Esgoto, mas que ela gosta
de mim. Olhei-me no espelho e vi: eu sou realmente parecido com um Rato
de Esgoto. Maravilha! Mas a partir de hoje, dezesseis horas e trinta e
nove minutos, nasce um novo personagem no show business da Net
mundial: O Rato da Net! Daqui sairão mensagens para todos que
quiserem acolher a esperança de jamais aceitar o esgoto, pois o Rato da
Net afirma pra vocês que tem um pacto com as estrelas. E que jamais será
vencido!
*
Publicado em Boneco De
Deus, 2002 - Luz do Milenio Editora. Marcelino Rodriguez é autor de "Bom Dia, Espanha",
"A Ilha", "Café Brasil", "Mar, Romântico Mar", entre outros. Recebeu o
Prêmio Pèrgula Internacional.
:: Mais sobre...
Marcelino Rodriguez
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