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Quem
é o inimigo? Quem é você?
Por:
Marcelino Rodriguez*
Em janeiro de 2009
Recebo pela web o livro Carregando o Elefante, que trata das muitas
incompetências do Brasil e algumas potencialidades, caso se tomem algumas
providências. Em plena era da telefonia e da internet, fax, telefones
e outras comodidades uma Vara de justiça demora no mínimo quinze dias pra
saber quanto tem num banco que fica a vinte minutos do fórum. Inacreditável?
Se fosse só isso. O déficit educacional e, conseqüentemente, humano joga-nos
a todos num cotidiano imprevisível, violento e aleatório. Vejamos como é na
prática. Uma prestadora de serviços andou me estressando, então fui às
pequenas causas. Na conciliação a empresa tinha dois advogados. Uma loura
delicada e um rapaz magro; ambos pareciam desconfortáveis com a proposta da
empresa. A loura visivelmente desconfortável em mostrar qualquer tipo de
agressividade. O rapaz magro era uma espécie de auxiliar de nada. Apenas
dizia que a empresa não queria pagar mais que cem reais.
Como não houve acordo, o conciliador mandou que eu fosse buscar o advogado
público que atua nesses casos e rápido que a audiência de julgamento era em
dez minutos. Chegando na porta da advogada pública uma delas estava fechada
e a outra batia um papo com três PMS (policiais militares) que dificilmente
seria sobre clientes e fornecedores.
Percebi o descaso e questionei-a:
- Meu filho já chamou para AIJ?
- Senhora, a audiência é em cinco minutos, sou leigo, se a senhora
começar a falar em termos técnicos é complicado.
E quase começou uma discussão inútil, com um dos PMS querendo rosnar para
mim. Fingi-me de surdo. Por quase milagre a outra advogada apareceu, vestida
como se estivesse vestida para o pagode do Joca e com ar tão sério e
compenetrado quanto!
Na verdade os funcionários públicos do Brasil se acham "especiais". Claro
que não deu tempo de ela ver meu processo. No corredor topei com a loura, a
advogada da prestadora de serviços que me sorriu e apontou a sala de
audiência.
- Doutora, para quem não milita nisso esse fórum é um inferno.
- Imagina eu que estou aqui todo dia.
- É, mas Você ainda sabe alguns códigos.
Na hora da audiência tive que entrar com a "advogada pública" e um
pensamento agressivo me veio "que fiz eu pra estar ao lado desse traste?".
Devido à incomunicabilidade com a advogada pagodeira, perdi um ou dois
pontos na audiência. A loura entregou papéis ao juiz e ficou mexendo nos
cabelos de modo a esconder o rosto. A audiência que nada resolveu
praticamente foi marcada para outro dia, para que a "advogada da parte
autora" possa se inteirar do processo.
Na
saída, a advogada pagodeira foi no cartório e também não achou o processo,
me mandando voltar na outra semana. Eu já estava exausto, como se tivesse
vindo da guerra do Afeganistão. No Brasil não sabemos nunca onde está o
inimigo: a impontualidade, a displicência, o descaso, o desperdício, a
estupidez e até mesmo a deselegância no vestir pode nos transformar de autor
a réu em minutos. Alguns modos de disciplina cívica fariam bem a certos
universitários de áreas de risco. Muita informalidade nada mais é que falta
de educação.
* Marcelino Rodriguez é autor de "Bom Dia, Espanha",
"A Ilha", "Café Brasil", "Mar, Romântico Mar", entre outros. Recebeu o
Prêmio Pérgula Internacional.
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