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Recordações
do parque das fadas
Por:
Marcelino Rodriguez*
Em fevereiro de 2009
Olhando pela janela, a mulher grisalha rememorava; na sua mente, uma vaga
música indistinta como um toque de realejo. Eram os tempos frescos no
Parque das Fadas, que era como seu Albino, seu velho pai que fabricava
os carimbos da cidade chamava a Praça Antiga de Três Corações. Era
onde ela, Dona Adélia, agora já avó e viúva, recordava quando ia ela, o pai
e Nosso Senhor. Sim, o Pai a levava semanalmente ao fim da tarde, com dois
ou três livros em mãos para contar-lhe histórias. A menina Adélia gostava
sobretudo do livro negro, a Bíblia, que contava a história do homem que
reinava em cima de um burrinho e multiplicava pães e peixes.
- Como Jesus faz isso pai?
- Minha Filha, tem coisas que só Deus sabe. Aprende isso.
- Jesus sabe ainda mais que o vovô?
- Com toda certeza.
Dona Adélia agora olhava pela janela. Mas o que via e ouvia assim que
voltava ao silêncio, era o bonito homem de negro com seu bigode antigo. O
pai fizera daquela simples praça um lugar mágico. Durante anos tinha que
caminhar um tanto para estar ali.
Agora já podia tudo. Aposentada e proprietária de ainda duas casas que lhe
trouxera o marido; era ela uma das pessoas mais queridas da cidade mineira.
Na sala, o retrato dela com o Pelé, um dos filhos ilustres da cidade. E Dona
Adélia era mesmo elegante!
Naquela Praça que ela contemplava de sua janela agora, fazia quase meio
século que caminhara com Dom Quixote a lutar com moinhos vento. Ali chorara
com Gonçalves Dias a saudade de sua terra, onde o Sábia cantava.
Um dia seu Pai foi para o hospital e não voltou mais. Adélia tinha já adorno
nos cabelos, curvas no corpo e o secundário. Herdara do pai principalmente
aqueles livros, aquelas figuras. E foi dali, ensinando a outras crianças,
que Adélia foi passando a magia do seu Albino. Logo um outro homem de bigode
e farda deu-lhe uma casa mais ampla e mais uma menina de tranças. Tempos
depois sua mãe partiu para o outro mundo, assim como o marido. Ficou-lhe a
filha e os livros...
Dona
Adélia volta sempre ao Parque das Fadas. Volta com a neta, mais
livros e a seu redor como pombos em busca de milho quase uma dúzia de outras
crianças, que silenciam de olhos brilhantes quando ela começa a contar, sem
saber ao certo onde o real e o sonho, a vida das figuras de dentro dos
livros.
* Marcelino Rodriguez é autor de "Bom Dia, Espanha",
"A Ilha", "Café Brasil", "Mar, Romântico Mar", entre outros. Recebeu o
Prêmio Pérgula Internacional.
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