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A vida em temporadas completas
Por: Helder Miranda

Em julho de 2009



Sem scripts ou protagonistas definidos, a vida é assim. E não adianta lutar contra, os próximos capítulos estão aí, e vêm avassaladores.... Saiba mais de "A vida em temporadas completas"!


A vida, se não for uma novela ou o seriado, tem o roteirista mais engenhoso, organizado e coerente que existe. Capaz de abordar dos temas mais polêmicos aos mais delicados, tudo sobre o revestimento leve do cotidiano. Somos protagonistas em nossa história, de outras também (que dirá nossas mães). Também somos figurantes em outras vidas e coadjuvantes de outras, às vezes justamente daquela que daríamos um braço para sermos o personagem principal absoluto.

Nas últimas semanas, o roteirista-mor aproveita para resolver situações pendentes, mesmo que no meio do ano você tenha chegado ao seu limite físico e emocional. Para apimentar e aumentar o interesse da audiência, sem aviso prévio – o que nos torna reis no improviso sem direito a reclamação ou “pitis” de estrelismo – ainda pode acrescentar uma pitada de degradação.

Calma, o papel aumenta até a carga que cada um pode aguentar, mesmo que isso pareça, à primeira vista, impossível. E é só até o mocinho dar a volta por cima... Antes disso, porém, todos sabem que muita água “vai rolar”: quando tudo parecia estar de volta ao seu estado normal, alguém pode aparecer do nada e enfiar uma arma em sua cabeça. Afinal, realidade nunca é demais no roteiro da vida.

Esse assaltante vai aparecer muito mais que cinco minutos. Sua função é mostrar em flashback traumas antigos, até então não aprofundados para o telespectador. E é justamente nesse momento que a personagem cresce, para arrebatar quem o assiste, e quer o que lhe é de direito: reaver a vida que ficou pendente.

De alguma forma, esse roteirista dá ao personagem em questão o livre arbítrio de retroceder em uma escolha ou seguir em frente, sem alardes ou “frescuras”. A partir daí, surge uma força inesperada. Tudo feito sem dramas, afinal, quem está ali não é a protagonista lacrimosa – e chata – da novela das oito. A vida é muito maior que qualquer script.

E o personagem decide, vai lá, faz o que tem de fazer... Talvez o que esperam dele. Por amor, aos pais, à ela, aos amigos, em consideração ao personagem que será nos próximos anos. E a máscara do bom moço, aquele, o mesmo que um dia quis errar e ser feliz, talvez fique colada para sempre naquela personagem e ele correrá o risco de interpretar sempre o mesmo papel e se tornar um ator insatisfeito.

Chega 31 de dezembro, data que sempre tem jeito de último capítulo – com a maioria das personagens bem-vestida e feliz. Dia que é palco de reconciliações, enlaces, desenlaces, resoluções, revelações alcoolizadas. Do reencontro com algum antigo amor que deu o fora no figurante no passado, mas hoje o cumprimenta com certa reverência em um encontro casual no shopping. Naqueles olhos admirados, há uma ponta de arrependimento: ele não é mais o “saco de ossos” de antes. Enfim, a vida anda para frente.
De tudo isso que falei, o momento mais esperado é o beijo na contagem regressiva dos últimos segundos do ano. Será que fulano vai terminar com cicrana, ou jogar tudo para o alto e correr para os braços da outra? O fato é que ano novo sempre resolve, faz esquecer o telefonema de Natal que não veio, mas mesmo sentindo-se idiota, alguém o esperou mesmo sabendo que não viria.

O ano termina, e chega com alguns ganchos, para a próxima temporada. Sabe aquela mocinha que lutou com um inimigo invisível, talvez sintomas de desinteresse do namorado? Pois é, ela penou para reconquistar o protagonista de sua vida e pode, no final de ano, ostentar uma suspeita de gravidez a um atabalhoado personagem que não sabe se ri ou chora, já que ostenta o clichê de temer a repetição dos mesmos-erros-cometidos-por-seus-pais. No fundo, sabe que vai dar tudo certo, sempre deu. Final feliz? Talvez.

E o destino ocupa, soberano, e pode se apresentar na forma de uma doença, de um reencontro, de uma perda e alguém especial. E não adianta lutar contra, os próximos capítulos estão aí, e vêm avassaladores. Um dos destaques da próxima temporada é aquela novata no escritório que para falar a respeito de seus sentimentos é necessário um saca rolhas. Ela recomeçou do zero e, mesmo sentada no salão da última chance à espera e alguém que a chame para dançar, está mais experimentada e deseja cometer atos de vilania.

Ela sabe que pode, e deve, fazer aquele colega de escritório nerd com quem se estranhou na primeira semana sair da linha, quem sabe perder as estribeiras. Egocentrismo? Talvez, ela o detestava até semana passada... Até debaterem sobre Tolkien, trocarem textos engavetados, descobrirem que odeiam cinema paquistanês. É por esse tipo que hoje ela acorda, dedica o primeiro e o último pensamento do dia, e mistura flagrâncias doces e cítricas, sem nem desconfiar que ele é alérgico a perfumes.

Enfim, a novata pode fazer com que ele saia da trilha do caminho estabelecido, mas sabe que quem sairá ferida é ela, mais uma vez. Já viu esse filme e não aprendeu nada, mas sobreviveu com alguns arranhões e o pragmatismo e que homens que passaram por seu histórico não prestam. Agora, está viva e pronta para a próxima. Desde sempre.

Porque o não é garantido, e contamos com o consolo de hoje sermos protagonistas, amanhã coadjuvantes na vida dos filhos e netos que surgirão. Ficaremos restritos em papéis menores e, de certa forma humilhante para quem viveu tanto. Ainda bem que não vendem temporadas completas de nossas vidas. Embora nos orgulhássemos de alguns atos de heroísmo, correríamos o risco de testemunhar o quanto fomos bobocas em atitudes e situações do passado. Mas a vida está aí, justamente para isso.

 
 
 
 
 
 

 

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