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A
bagagem do viajante
Por:
Marcelino Rodriguez*
Em julho de 2009
Uma amiga psicóloga já aposentada me escreve de São Paulo dizendo que para
sobreviver o ser humano precisa de três abraços por dia. Ao ler o que ela
escreveu, dei uma risada a La Adans e compadeci-me. Uma série de eventos
minúsculos e grandes me levaram nos últimos meses a um isolamento que seria
feliz se eu já estivesse gozando a aposentadoria do meu Nobel que ainda não
veio, nem sei se virá.
A incerteza quando ao futuro é a tônica dos meus dias tem décadas. As
pessoas querem comprar pão, carne, vegetais, armas, músicas, drogas,
pranchas de surf, roupas, fraudes ou os livros daqueles que aparecem
nas telas do mundo. Os escritores a meio caminho da grande fama são deixados
a meio caminho, correndo o risco de sucumbir na feroz escala da cadeia
alimentar.
Fico então assistindo ao mundo da tela da TV e fazendo análises profundas e
silenciosas que podem dar em alguma coisa ou em coisa nenhuma. Percebo
coisas sutis de todos os lados. No Senado, por exemplo, o Senador Cristovam
Buarque parece uma figura de desenho animado perdido entre os predadores.
Estava lá ontem corrigindo um artigo enquanto se digladiavam governo e
oposição. Seu artigo será lido por um por cento da população e entendido por
meio por cento. O Senador fala, na maioria das vezes, sozinho. “Não posso
votar nada enquanto não houver legitimidade”.
Homem culto, verdadeiramente culto, fala isso sem nenhuma ferocidade, o que
no terreno da política atual o torna, assim como todas as pessoas que ainda
sentem e percebem a insensatez da “Nova Ordem Mundial”, personagens
atípicos. Algo assim como alguém recitar um poema na Cinelândia ao meio-dia.
“O Senador Está Só.”
Caiou mais um Avião no Irã matando mais de cem e sobreviveu uma menina (mais
uma?) da janela, normal.
Tempos modernos.
Um médico condenou a morte suas pacientes?
Pura Vanguarda.
Exorcismos ao vivo em algumas redes.
Claro, o diabo está solto.
O Império das Coisas Deterioradas.
Renato Russo cantou “Sujeira pra Todo lado”, e depois, como todos, morreu.
Fico todos os dias imaginando qual a minha utilidade, planejando fazer um
slide falando de amor. Não seria mais fácil eu desenhar Jesus andando sobre
as águas?
Não
sei desenhar. Recordo-me aqui que anos atrás um livreiro me perguntou qual o
gênero do meu livro “Crônicas” – respondi orgulhoso. “Pra que diabos quero
crônicas?” E meu castelo de copas desabou. Já ouvi muitas coisas desse e de
outros tipos. Então ando fechando as orelhas. A grande batalha é sobreviver
com a percentagem mínima do mundo que ainda “sobre”vivem na Gomorra e Sodoma
da atualidade. Resta-nos poucas alegrias.
Ler uma crônica maravilhosa do José Saramago sobre um tal de José em a
Bagagem do Viajante, que poderia ser o mesmo José do quase esquecido
Drumonnd. Pena que a crônica é sobre a inacreditável e gratuita crueldade
humana. Ou quem sabe aplaudir mesmo que de longe Roberto Carlos no
Maracanã, enquanto a chuva cai torrencialmente. Enquanto isso, talvez
com medo de tomar um toco, vou adiando encontros amorosos indefinidamente.
Nunca se sabe.
O país da alegria está distante, além das nuvens. O que temos agora são
pequenos flashes de uma ou outra estrela.
Há
dias atrás eu estava vendo o Mágico de Oz, maravilhado.
O mundo poderia parar numa das canções da Dorothi. Três abraços por dia?
Só na selva, talvez, entre os Pandas...
Fiquemos nos três anuais e está bom demais da conta se vierem sinceros como
os do Homem de Lata em Dorothi.
* Marcelino Rodriguez é autor de "Bom Dia, Espanha",
"A Ilha", "Café Brasil", "Mar, Romântico Mar", entre outros. Recebeu o
Prêmio Pérgula Internacional.
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