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Cão
argentino e outras graças
Por:
Marcelino Rodriguez*
Em agosto de 2009
Os demônios interiores do ser humano diante da graça canina. Saiba mais!
De tempos a tempos, tenho problemas espirituais. São demônios interiores,
impasses, neuroses diversas e variadas, ou simplesmente uma vontade
imperiosa de isolar-me.
Não fosse uma certa sensualidade e eu poderia bem viver numa cela de
Convento entre livros ancestrais, preces e silêncios.
Às vezes essas crises vem por necessidade da minha alma mesmo.
"Quem tem alma não tem calma". Às vezes a viagem é tão ruim pelos meus
percalços internos que tenho que pedir pela misericórdia de Deus. E algumas
vezes a tive de formas singulares.
No tempo que vivi sozinho na Argentina, por exemplo, logo nos primeiros
dias, tive uma amizade espetacular com um cão. Parecia que eu o tinha criado
tamanha era sua fidelidade. Acho até que alguns argentinos ficaram com
ciúmes do afeto que o cão me tinha. Ia eu para o bar e lá ele ia-me atrás e
claro que eu dava-lhe umas batatas. Falava-lhe coisas ternas e olhava seus
olhos de bondade cheio de gratidão. Não sei porque me lembrei com saudades
desse cão hoje. Eu ali tomando um vinho com soda na noite, olhando a rua
larga e deserta, e o cão ao pé de mim. Ele me livrava de uma solidão feroz e
humilhante naquele início de um exílio auto-imposto.
Em outra situação uma menina me acompanhou numa peregrinação espiritual em
Goiás todo o tempo, sendo que eu estava completamente sem estrutura para
fazer a caminhada. Com a ajuda dela, passei aquela provação.
Em que vai dar nossa síntese que é uma coisa boa das crônica?
Não sou um tipo de crente voluntarioso. Tem gente que pensa que tudo é uma
questão de vontade e pensamento. Eu digo que tudo é graça de Deus.
Eu
digo que somos dependentes, embora em geral abusemos de nosso livre-arbítrio
relativo.
E agora, vendo novamente os exercícios de Santo Inácio, fico feliz de ver
que ele pensa como eu.
Não basta apenas fazermos a guerra espiritual.
Precisamos, e mais do que nunca nesses tempos, da graça e da misericórdia
conforme Deus a queira revelar em coisas animadas ou inanimadas.
* Marcelino Rodriguez é autor de "Bom Dia, Espanha",
"A Ilha", "Café Brasil", "Mar, Romântico Mar", entre outros. Recebeu o
Prêmio Pèrgula Internacional.
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