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Chore por mim, Argentina
Por: Marcelino Rodriguez*

Em agosto de 2009



Um desabafo sobre a quase inexistência da cultura no Brasil. Leia na íntegra a crônica de Marcelino Rodriguez!





Mandei uma crônica minha pra um dos meus correios de divulgação dos meus textos, lista essa com mais de duzentos nomes. Só recebi um comentário, vindo de uma leitora da Argentina.

Salvou-me o dia.

Aliás, não fosse eu já ter sido publicado em sites do exterior e recebido críticas até da Republica Dominicana iria duvidar do valor do meu trabalho.

Eu sou muito triste e solitário no Brasil.

Vivo um exílio sem fim. De vez em quando olho o que resta do último livro que publiquei impresso e penso em jogá-los todos fora, queimá-los e isolar-me definitivamente do social brasileiro.
 
Não sabia o que andou me abatendo nos últimos dias até que parei para pensar e descobri.

Estava me sentindo traído pelo país.

Já escrevi dez livros, ainda que sem apoio de ninguém praticamente no sentido oficial público ou privado; ou seja, claro que uma meia dúzia de boas almas me ajudaram (e ajudam) bastante a sobreviver, mas em geral a população não apóia não.
 
O brasileiro médio só pensa em si próprio, já me disse uma vez um taxista desiludido. Quer saber quem é seu amigo? Publique um livro no Brasil e tente vender.
 
Faça lançamentos. Prepare-se para “perder” um monte deles.

E não se trata apenas dessa tragédia do egoísmo com relação a literatura, não.

Não sou corporativista nem com os intelectuais daqui.

O bem do outro aqui é desprezado, como se o bem do próximo não fosse também um bem da vida, ou seja, para se chegar a algum lugar tem que se lutar contra a corrente, que torce e conspira para sua derrota.

Um ser humano relativamente educado já é problemático e pecaminoso; um ser humano sem letras e sem refinamento é bárbaro.
 
De nada adianta campanhas para o futuro se não aculturar de verdade a população e não esse ensino maquiado que não forma ninguém. Se alguém duvida do que digo, veja a qualidade de muitos “profissionais” de nível superior do país, metidos nas mais variadas falcatruas.
 
Deus é brasileiro? Sinceramente, não creio nisso.

Não concebo um Deus que não goste de poesia, teatro, música, cinema, leitura, artes plásticas, simetria, pontualidade.

Agora que a pessoa que realmente queira fazer algo sadio e produtivo aqui tem que contar com a ajuda divina, senão não anda, isso tem. O povo só não sabota os mais famosos, quando já saíram do inferno da sobrevivência.
 
Ao menos cada vez escrevo menos e não posso deixar de gozar uma ironia interior de saber que com isso o país fica mais burro do que já é.

Aqui o que tem valor não vale nada.

Pode chorar por mim, Argentina!

E que Deus te proteja, Marcelino!

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* Marcelino Rodriguez é autor de "Bom Dia, Espanha", "A Ilha", "Café Brasil", "Mar, Romântico Mar", entre outros. Recebeu o Prêmio Pérgula Internacional.

 
 
 
 
 
 

 

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