|
Solidão
dos Médiuns
Por:
Marcelino Rodriguez*
Em setembro de 2009
Experiências de outro mundo vividas por médiuns solitários. Leia na
íntegra a crônica de Marcelino Rodriguez!
Acredito que, uma experiência em que todos os médiuns de certo nível passam
é a solidão, ao menos de tempos em tempos. Além do aspecto das experiências
singulares, como por exemplo, ter entre seus melhores amigos gente que está
do outro lado da vida ou então mesmo ficar sabendo de antemão coisas que só
depois de certo tempo passam para a experiência objetiva de todos os
envolvidos. Pior é que na maioria das vezes não podemos falar. Vamos colocar
isso em exemplo, para que eu não fique lá muito misterioso ou esotérico. Há
mais de vinte anos atrás, talvez uns vinte e cinco, quando eu nem sonhava
estar envolvido com experiências desse tipo, li um livro que impressionou-me
bastante, Sobre Vida Depois da Morte, história de um médium.
Eu me envolvi completamente com a história daquele sujeito que via e ouvia
gente que já tinha passado para a outra beira do Rio. Acreditava em tudo que
ele dizia, até porque ele não se enaltecia jamais, tinha um senso de humor
singular e a minuciosidade dos fatos que descrevia aqui e além, tiravam
qualquer indício de fraudes.
Já li e leio muito, diariamente. Esse foi sem dúvida um livro que me marcou
e se tornou inesquecível para mim. Pois bem. Dia desses, estava olhando uns
livros pelo centro quando o mesmo livro me veio as mãos ao preço de três
reais e comprei para rele-lo e reencontrar o autor, agora que partilho com
ele algumas experiências comuns. O livro veio-me, sei bem. Entre a solidão
dos vivos, muitas vezes foram amigos idos que me fizeram rir, chorar e me
ensinaram coisas, assim também se passou com o autor do livro, Leslie Flint.
Dia desses falei por alto com uma pessoa que sobre essa minha particular
experiência, mas nem sei se fiz bem. Imagina você conquistar uma garota
nesses termos.
- Oi, Gatinha. Tudo bem? O Leslie tá me ensinando coisas de novo.
- Que Leslie? Bem, na verdade ele já bateu as botas tem um tempo.
Claro, a mulher nem me respondeu. Fiquei envergonhadíssimo. Não, eu não
falei do Leslie.
Não diretamente, claro. Mas ela deixou-me de responder as perguntas que fiz.
E acho que dispensou meu convite para uma pizza, devido ao silêncio. E eu só
queria falar um pouco mesmo, mais nada.
Isso seria tudo simples assim, se pudesse ser.
Muitas vezes porém essas experiências de comunicação ocorre com o espírito
dos vivos mesmo.
E lá você acorda no meio da noite, sonhando com a mulher que não te
respondeu conversando com você.
Ela e um cachorro.
E
você não entende nada o que fazia um cachorro no sonho. Afinal, a mulher não
tem cachorro.
Você
acorda. Lava o rosto. Toma sua água mineral Perrier e, de repente,
fica para lá de encabulado. A ficha cai.
Quando você a conheceu, ela tinha um cachorro.
Ah, velho Leslie, se pudessem os vivos nos entender....
Comente esse texto no blog do autor e ganhe o livro “A Bagagem do Viajante”
de José Saramago.
www.marcelinorodriguez.blogspot.com
* Do
livro Crônicas da Mediunidade (livro inédito). Direitos reservados.
* Marcelino Rodriguez é autor de "Bom Dia, Espanha",
"A Ilha", "Café Brasil", "Mar, Romântico Mar", entre outros. Recebeu o
Prêmio Pérgula Internacional.
|
|