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Bliss
Por:
Helder Miranda
Em dezembro de 2009
Sou o cara do ponto de ônibus com uma estranha predisposição de criar
histórias para os que estão na fila. Há, nela, de tudo – acredite...
Se você me perguntar quem eu sou, respondo facilmente. Sou o cara do ponto
de ônibus com uma estranha predisposição de criar histórias para os que
estão na fila. Há, nela, de tudo – acredite – com tantos rostos e roupas de
frio e de calor que sempre se modificam a cada dia, eu estou lá, vendo tudo
e indo para o trabalho. Do romântico inveterado (e talvez eu me enquadre
muito nesse perfil), à vilã incorrigível e meio desajeitada, passando pela
velhinha dócil que não leva a culpa de ter atrapalhado um romance, mas fez
isso, e hoje leva a simpatia da maioria.
Esse sou eu, repito, um observador contraditório por ser um péssimo
fisionomista, ter a memória fraca e, muitas vezes, levado a mal por não ver
quando sou cumprimentado por conhecidos na rua, e não retribuir. E você pode
perguntar quem é ele, e o que o assinala para escrever sobre livros? A vida,
eu responderia. Não sou um crítico, mas um apaixonado. Até porque discordo
dos especializados, na maioria das vezes.
Escrever sobre literatura – e, como pretendo neste espaço, eventualmente
sobre músicas, filmes, cantores e artistas, por que não, “se tudo bebe da
fonte da literatura”? (alguém já me disse) – não é tarefa penosa. Para mim,
é vida. Explico: comecei a escrever desde os seis anos, e leio desde então.
Quando não sabia escrever, desenhava. Ainda hoje, quando estou triste,
rabisco.
Trabalho
com isso, conheço pessoas, elaboro reportagens e, quando um livro me agrada,
resenho. Perdi a fala quando conheci Ana Miranda – vencedora por duas vezes
do prêmio Jabuti, o maior na área literária no Brasil – e depois não parava
de beijá-la, diante de tanta doçura. Troquei alguns e-mails com Fernanda
Young e, talvez por tê-la entrevistado algumas vezes, dei um depoimento
sobre ela (que até hoje não sei se foi publicado) para a revista Imprensa.
Levo o mérito de ter entrevistado aos 21 anos, com um colega de redação, o
escritor Sidney Sheldon. Claro, também me decepcionei com alguns, que se
mostraram verdadeiros babacas, mas o que importa, mesmo, são os textos que
eles fazem, e que sempre vão mexer comigo.
A sensação de ter este espaço para falar de algo que é tão pouco valorizado,
e sem o ar solene e pedante como é, sim, tratada a literatura – e seus
escritores, e seus livros, e seus roteiristas, e seus leitores – me remete a
um antigo conto, que li recentemente. Chama-se Bliss, de Katherine
Mansfield. Assim como saudade, que não tem tradução fora da língua
portuguesa, Bliss é, em uma tradução apressada, significa “mais que
felicidade”.
Fala
de uma mulher, tomada de felicidade, que promove um jantar para o marido e
amigos, e é surpreendida por um acontecimento que pode mudar tudo. Esse
final desconcertante é, também, o frio na barriga que sinto ao terminar o
texto e esperar a sua resposta sobre tudo o que escrevi até aqui. É a mesma
sensação diante de um livro novo. Estou na berlinda, como cada escritor
quando termina um livro, sempre à mercê da aceitação, ou não, do leitor que
pode optar por não seguir para a próxima página. Será que outro texto meu
volta para você na semana que vem? Tomara que sim. Cuide-se muito!
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