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alegriA eM estadO brutO
Por:
Helder Miranda*
Em agosto de 2011
Nova visita às terras mineirinhas. Confira a crônica de
Helder Miranda!
Durante bem pouco tempo, eu reconheço, mas valeu. Enfrentar Minas, outra
vez, para fugir do Carnaval, talvez tenha sido a oportunidade certa para
enfrentar questões. Refazer o trajeto, pelo caminho inverso, mas quase pelo
mesmo destino, até um pouco mais longo, me fez entender. Longe demais de
casa, mas não me cansou o banco de ônibus. O que me cansou foi o passeio,
"eu também tenho os meus limites", disse à Mary Jane, que perguntou se eu
estava gostando do passeio.
"Não, não gostei", eu disse, mas não era pelas cidades cheias de história,
casas com arquitetura colonial e cores que me gritavam aos olhos e uma
overdose do período Barroco e esculturas de Aleijadinho. É tudo bonito,
reconheço, mas aos olhos dos outros, não é para mim. Ou não é de mim
apreciar isso. Gosto de modernidade, de arranha-céus, de pistas asfaltadas
ao invés de paralelepípedos. O ambiente, meio depressivo, de gente que
respira o passado e ainda tem marcas (ou lucra - e muito) com isso, não
combina comigo.
Contribuiu, muito, o fato de o pessoal da excursão ser meio chato e eu bater
boca com uma senhora, bem atrevida, que se apoderou de meu lugar em uma das
vãs alugadas e me disse uns desaforos. Não gosto, ali, do estereótipo do
"pão de queijo", do "docim" e gosto do clima, por mais que se faça calor,
você não sua um mísero PINGO!
Entre as figuras interessantes, havia um rapaz, que parecia jovem mas
deveria ser velho, que a princípio não gostamos, e apelidamos de "Peito de
Pombo". O que vale dessas viagens é que, pelo menos no meu caso, você se
permite muito mais conhecer às pessoas do que julgá-las e mantê-las na
"lista dos ignorados". Aconteceu que, em nossa mesa, estavam sobrando dois
lugares e "Peito de Pombo" educadamente perguntou se nos incomodávamos se
ele sentasse ali. Dissemos que não, e ensaiamos uma conversa, em que
descobrimos que ele foi um dos mochileiros que ficaram presos na enchente de
Machu Picchu, a "cidade perdida dos Incas". Segundo ele, tudo foi muito
dramatizado. Pena que, no decorrer da viagem, não conversamos mais, embora
trocássemos cordiais acenos.
Mais do que a arquitetura, eu juro, me interessei em saber mais sobre quem
havia passado por lá, como se procurasse pistas. Gente de Uberlândia,
Goiânia, Santos, Alemanha, França - e eu assinei minha marca, em apenas uma
dessas listas, numa espécie de egocentrismo para quem não me conhece, mas
mesmo assim pode me ler, e se interessar pelo meu nome - "estive aqui, e
você nem soube. Bem feito!". Talvez Mary Jane tenha se decepcionado por eu
não ter gostado, mas preferi ser honesto e me empenhar em aproveitar tudo
com ela, como de fato fizemos. E, nesse quesito, sobretudo em viagem, quando
fugimos dos outros excursionistas e fazemos nosso próprio roteiro,
geralmente regado à própria sorte.
Num
desses percursos, vi, de longe, um pequeno bistrô que em nada lembrava
aquelas casas antigas. Era mais assemelhada às construções do "The Sims 3",
de quem minha Mary é tão fã. Fomos até ali, e tiramos várias fotos, mas não
entramos. Havia, ali, uma atmosfera rockabilly (nham nham nham), ou "Pushing
Dasies" - o colorido Disney. Exatamente naquele momento, fui feliz. Ali em
Mariana, a cidade em que nos hospedamos, se olhássemos para a frente
facilmente poderíamos ver uma espécie de carro de mão, com um toldo em cima,
iluminado, e um bando de pessoas em volta. Fomos para lá, e uma voz,
parecida com a da Elza Soares, cantava músicas antigas.
Ficamos intrigados e, na noite seguinte, depois de alguns (exaustivos)
passeios, tivemos a oportunidade de participar de um bloco de carnaval de
rua, o 'Circo Volante'. Ali, novamente fui feliz, embora não goste de
carnaval. Eram músicas antigas, e de repente, eu estava no meio deles
agitando os braços e cantando músicas de refrão fácil, mas que nunca havia
escutado, e me sentindo livre. Mary, fotografava tudo, em sua mania que
muitas vezes me irrita - penso que ela deixa de aproveitar os momentos para
registrá-los e, nesse caso, creio que a posteridade valha um pouco menos.
O
bloco em questão contava com uma moça bonita no saxofone, meio
"hippie-modernosa", alguns vocais e batuqueiros - e imagino que lembre,
embora eu desconheça, o "Teatro Mágico", um grupo muito famoso por aqui, em
São Paulo. O show, literalmente, teve o seu primeiro auge quando um deles
começou a cuspir fogo e, depois, outro deles pulou numa roda toda
incendiada. Entoando marchinhas paramos, atrás do carro de mão iluminado em
frente a um restaurante, meio rústico, chamado "Circo Volante". Um deles
falou que, a partir daquele momento, contariam com uma participação
especial, e chamou "Tia Delma". O grupo de pessoas começou a chamá-la, em
couro, e eu pude ver o seu rosto, escutar as suas canções, e ser feliz um
pouco mais.
*É
jornalista, escritor e roteirista. Twitter: @heldermm.
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