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Randy
Pausch está morto
Por:
Helder Miranda*
Em novembro de 2011
Um adeus inesperado e a interrupção dos planos de uma vida. Confira a crônica de
Helder Miranda!
Em uma tarde fria, diante do mar, um homem chora. O vento corta a sua barba
por fazer, mas ele está concentrado em entender o quanto as próprias
decisões o levaram até aquele banco. O motivo? A morte de um autor que,
durante algum tempo, foi seu melhor amigo. O homem era eu, e o amigo, no
caso, um autor norte-americano que nunca soube de minha existência.
Livros têm esse poder, de transformar ilustres desconhecidos em pessoas
próximas e, por que não, queridas. Randy Pausch, o falecido autor de A
Lição Final (Agir), me acompanhou para cima e para baixo, em formato de
audiobook, em andanças pelos ônibus, enquanto a minha própria vida
seguia o seu percurso.
Durante o trajeto, enquanto escutava, possivelmente passaram por mim
centenas de possíveis personagens incríveis, mas eu não prestei atenção,
entretido em sua história. Pausch, narrado por Paulo Betty, contava sua
trajetória a partir da descoberta de um câncer terminal no pâncreas. Sabia
que iria morrer e, para isso, quis deixar um legado para os filhos. Uma
palestra a respeito de Como Realizar os Sonhos de Infância,
vista por milhões de pessoas no You Tube.
Faço aqui uma ressalva: se você pretende ler qualquer obra, não ouça antes
em áudio. Explico: quando, de uma maneira muito especial, o livro foi parar
em minhas mãos, a voz de Paulo Betty, enquanto eu lia, vinha em minha mente
– algo meio desagradável, e brega, se você é ranzinza como eu.
Por incrível que pareça, o livro derivado do vídeo de sucesso na internet,
apesar do tema pesado, é leve, alegre, divertido, e muito, muito piegas
mesmo. Ao mesmo tempo, não é uma autoajuda qualquer, embora tenha aqueles
conselhos-clichê no estilo “esteja preparado para quando a oportunidade
surgir”, mas o seu diferencial está justamente no fato de que é um manual de
instruções para a vida, a partir de sua experiência, voltado aos filhos que
não irá ver crescer.
Algo
muito triste, de fato. Quanto tive coragem de procurar no Google por seu
nome, possivelmente muito tempo depois de sua morte, me deparei com a
seguinte manchete na Folha Online: “Fenômeno na internet, professor da
‘última aula’ morre aos 47 anos”. Não tive coragem de ler a reportagem. O
resto da história, você já sabe e, diante do mar, concluí o sentido de tudo.
Livros destroem? O ator Carmo Dalla Vecchia, em um debate na mais recente
Bienal do Livro de São Paulo, disse que sim. E a obra que “destruiu seus
sonhos de infância”, foi Meu Pé de Laranja Lima (Melhoramentos), de
José Mauro de Vasconcelos. O texto, segundo ele, mudou seu conceito de mundo
e talvez o tenha feito perder a inocência mas, mesmo assim, como em um
ritual, ele o revisitava todos os anos. Naquele banco, percebi que o livro
mais inesperado era, também, algo concreto e, para mim, cheio de
referências. Era capaz de manter o autor de meu livro preferido vivo. E, seu
eu quisesse reencontrá-lo, bastaria relê-lo.
*É
jornalista, escritor e roteirista. Twitter: @heldermm.
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