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Mrs.
Dalloway
Por:
Helder Miranda*
Em dezembro de 2011
Mulheres de fibra, rosas de aço. Saiba mais detalhes da crônica de
Helder Miranda!
Quando percebe formigas em casa, ela enche o pires de açúcar para atraí-las
e as despeja em algum jardim a céu aberto, respeitando a própria conduta
ética de não matar nenhum ser vivo. Precisa aprender pelo menos uma coisa,
para que cada dia não passe em branco, e tem as feições de quem amou demais.
Mas sorriu, desacreditada, quando disse que ela me lembrava a Mrs. Dalloway.
Não a do romance homônimo de Virgínia Wolf, mas a de outro livro, As
Horas (The Hours, Cia. das Letras) de Michael Cunningham. Ambas as
obras, assim como o dia que precisa ser preenchido com um aprendizado, se
passam em uma única data. Clarissa Dalloway prepara uma recepção em sua
casa, na Inglaterra do
período pós-Primeira Guerra Mundial. Clarissa Vaughn, carinhosamente
apelidada de Mrs. Dalloway pelo amigo soropositivo em fase terminal, faz um
jantar em homenagem a ele. Como tudo está interligado, antes de definir o
título de seu livro como Mrs. Dalloway, Virginia Woolf cogitou intitulá-lo
como The Hours.
Até conhecer a Mrs. Dalloway da vida real, a personagem tinha a feição de
Meryl Streep, que interpretou no cinema uma das três mulheres que, em
períodos diferentes, vivenciaram o livro de Wolf. Agora, tem o rosto dela, e
um tom de voz aveludado e preguiçoso, facilmente definido como doce de se
ouvir e triste quando se é relembrado. Diante do computador, ela passa parte
de seu dia. Sabe que o reencontro consigo mesma depende de alguém que vive
em suas lembranças e espera rever.
Outra
mulher atualiza a todo o momento a sua caixa postal, em busca de sinais do
namorado, afirmando que seu sumiço só se justificaria se ele estivesse
morto. Enquanto se prepara para o reencontro com o ex para a devolução de
pertences, outra pensa que os óculos escuros são a melhor opção para
esconder os olhos marejados e conjugar, sozinha, o verbo acenar. O
reencontro pode vir de diversas formas. Há aquelas que, após um rompimento,
desabrocham na literatura e ganham leitores na internet, dando a si mesmas
uma segunda oportunidade para se perceberem.
No
final da noite, após uma jornada dupla, de todos os meus reencontros, os que
mais ficam na memória estão ligados à abertura do trinco da porta e os
imprevisíveis estados de humor de quem os atende. De sorriso no rosto, ou de
cara fechada, ela abre a porta. Sempre está linda e, embora não admita em
várias ocasiões, espera por mim.
*É
jornalista, escritor e roteirista. Twitter: @heldermm.
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