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O
destino mais justo para os livros rejeitados
Por:
Helder Miranda*
Em janeiro de 2012
A atitude de donos de sebo na hora das compras. Saiba mais detalhes da crônica de
Helder Miranda!
Os livreiros dessa cidade não gostam de livros, foi o que pensei ao sair,
ressentido, de um sebo... com a pesada pilha que havia levado depois de ter
combinado por telefone com o homem que me atendeu. Não eram livros velhos,
pelo contrário, eram best-sellers recém-lançados. Mas best-sellers, no
planeta desse senhor, não tinham valor.
Evidente que ele, o dono do estabelecimento, sem um dente da frente, queria
levar vantagem. E obviamente estava habituado a isso: eu seria apenas mais
um. Chamou uma mulher grosseira, que colocou uma série de defeitos em
livros, novinhos, e deu sua sentença: “um real em cada, no máximo”, como se
estivesse me fazendo um grande favor.
Diante de meu estarrecimento, ele intercedeu: “Compramos Sartre... Você tem
Sartre?”, com um sorrisinho sarcástico... e amarelo amarronzado. Sorri
timidamente, com a nítida impressão de ter sido, veladamente, chamado de
burro. Afinal, “ele lê best-sellers, gosta de literatura açucarada”, foi o
que deve ter pensado.
Mas eu, tal qual Clark Kent, estava disfarçado em seu mundo com cores
estranhas, e mal sabia ele que, como profissional da escrita, recebo toda a
sorte de produção literária. Entre elas, obras que não me interessam. Estava
ali não porque precisasse de dinheiro vivo, mas apenas pelo motivo de que em
casa, a pilha aumenta a cada dia, e sempre é preciso me desfazer de alguns
para abrir caminho para outros: a distribuição em aniversários e datas
comemorativas nunca são suficientes.
Era óbvio que ali eu não levava Sartre. Para ser sincero, nunca li esse
filósofo, nem concordo com a utopia dele de que intelectuais têm de
desempenhar um papel ativo na sociedade – a não ser que a própria arte seja
popularizada sem aquele ranço da prepotência que, infelizmente, ainda existe
na intelectualidade.
Tal
como aquele homem, outros livreiros estão à espera de um vendedor para
comprar por pouco e vender a um custo elevado. Pessoas que precisam diminuir
os outros para se sentirem superiores, ou provar conhecimento, mesmo sendo
tão inteligentes quanto um prato raso de plástico. Não gosto desse tipinho,
que precisa recorrer a teóricos, filósofos e pensadores para comprovar o que
pensa, deixando a nítida impressão de que falta opinião própria no mundo
pós-moderno.
Naquela tarde com alguns resquícios de água fria, depois de sair da loja sem
vender nada, pensei que o destino mais justo para os livros rejeitados seria
o de pertencerem a alguém que os quisesse. Foi o que aconteceu. Ao
deixá-los, vi, a uma distância razoável, uma senhora e uma menina, levando
para casa a sacola bonita que ficou à espera de alguém, protegida da chuva,
em algum canto da cidade.
*É
jornalista, escritor e roteirista. Twitter: @heldermm.
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