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Morte ao vivo
Por: Anderson Lima
Em junho de 2005
Mais do que nunca, estou tendo a impressão de que a TV está assumindo sua
porção mais grotesca nesses últimos dias. Não, não tem nada a ver com
Cidades Alertas ou Ratinhos e seus seguidores. É pior, pois envolve o
jornalismo dito sério em uma exibição de três histórias peculiares com um
forte tom folhetinesco e altas doses de açúcar que fariam qualquer candidato
a Janete Clair corar. Casos incomuns – e, por isso mesmo, explorados à
exaustão – de pessoas que tiveram de confrontar o fim da vida sob a
indiscrição de lentes e microfones.
Primeiro temos a americana Terri Schiavo, elevada da simples, porém triste,
condição de enferma ao posto de mártir da luta contra a eutanásia. A briga
saiu do âmbito familiar e trouxe cowboys, religiosos e médicos para uma
lavagem de roupa suja de proporções mundiais. Foi uma disputa acirrada, com
capítulos acompanhados com apreensão por olhos atentos de todo o mundo. O
desfecho desta história todos já sabem. Passemos adiante.
A próxima atração vem de Roma. No Vaticano, Sua Santidade, o Papa João Paulo
II, agoniza via satélite. Sua convicção é admirável, mas sua teimosia não o
deixou ver o show de horrores em que se transformara cada nova aparição
dele. Cada gesto requeria um esforço descomunal e não escondia seu rosto
sofrido, deformado pela dor. O grand finale não poderia ser menos
espetacular, com uma fila de milhares de pessoas dispostas a esperar dias
para dar um rápido lance de olhos no corpo daquele que foi considerado o
papa mais popular de todos os tempos.
Na outra ponta desse triângulo sinistro, se esconde uma figura que, apesar
de já ter sido dada como morta há tempos, ainda está muito viva. O freak
show do momento envolve um nome e dezenas de acusações: Michael Jackson e os
casos de abuso sexual envolvendo garotos.
Tal qual uma fábula moderna, a história mistura um Peter Pan pop, sua
neverland e alguns meninos perdidos, com um resultado bastante indigesto.
Interessante é ver como pais ditos inocentes permitem que seus filhos
dividam a mesma cama com um adulto muito suspeito. Depois é só esperar dois
ou três anos e preparar os bolsos para receber uma boa grana. É preciso
admitir que o cantor não é nenhum santo, mas transformar o caso em uma
verdadeira novela também não é uma atitude das melhores.
Qual o vilão da história? O negro prodígio que se transformou em branquelo
medonho? A mídia, que o elevou à condição de estrela e agora quer ver seu
fim? Ou nós, por admirá-lo tanto que o víamos como um deus vivo? É difícil
responder. Se o poder tem o dom de deformar a realidade daqueles que o
detém, o que esperar de uma pessoa que acredita ter o poder absoluto nas
mãos?
Mas posso dizer duas coisas antes do fim. Michael Jackson ficaria feliz em
sair limpo dessa, mas deveria se dar por satisfeito em se safar o menos sujo
possível de toda essa podreira em que se meteu. A outra coisa: se o
bicho-papão tiver um rosto, pode ter certeza que é o de Michael Jackson.
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