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O
teatro rodrigueano em Vestido de Noiva
Por:
Mary Ellen Farias dos Santos
Em junho de 2004
Imagine-se em um teatro de luzes apagadas.
"Buzina de automóvel. Rumor de derrapagem violenta. Som de vidraças
partidas. Silêncio. Assistência. Silêncio". É assim que começa a peça
Vestido de Noiva (1943), de Nelson Rodrigues. O jogo de luzes e som, além da
ruptura temporal entre real, alucinação e memória (mudança de cenários) são
fatores que causam em certo estranhamento no espectador, mas ao mesmo tempo
o aproximam, pois é necessário que cada detalhe seja bem entendido.
É neste jogo de espaço e tempo que Nelson Rodrigues prepara o espectador.
Contudo, marcante acontece. O uso deste recurso não limita o espectador,
pelo contrário o faz fica próximo dos fatores para depois juntar a
compreender a perturbadora história da jovem Alaíde. Na transgressão de
tempo, ação e espaço o espectador vive com Alaíde o conflito, caminhando
paralelamente com as emoções da personagem. Com a ruptura temporal Nelson
Rodrigues cria um teatro perturbador, cheio de reflexões. E nos deixa várias
perguntas que para serem respondidas é preciso criar uma lógica. É ao juntar
a 'mensagem' que pode-se perceber o quanto Nelson Rodrigues cutuca a
sociedade de classe média, burguesa, em que a aparência era mais importante
(sociedade hipócrita).
É por meio das reflexões de Alaíde que o espectador passa a conhecer a
verdadeira Alaíde, mulher reprimida que só tem coragem de ser livre quando
está entre a vida e a morte (alucinando). Neste estado Alaíde vive o
conflito com Madame Clessi, mulher por quem ela se apaixonou, por ser livre,
uma prostituta. Enfim, Vestido de Noiva é uma peça em que o afastamento do
decoro ao invés de distanciar o espectador, os acontecimentos simplesmente
aproximam ainda mais o espectador.
História: Alaíde é uma jovem inconformada com as convenções sociais
que reprimem a mulher. No entanto, a jovem só opõem-se a estas convenções
enquanto alucina. Com seu poder de sedução manipula as pessoas e rouba os
namorados da irmã. Alaíde casa-se com Pedro, que junto de Lúcia planejam e
desejam com intensidade a morte de Alaíde. A jovem encontra o diário de
Clessi, uma prostituta, antiga moradora da casa de Alaíde, é aí que ela se
vê apaixonada por esta mulher que viveu livremente e teve coragem de fazer
tudo o que desejava. Um dia um acidente de automóvel leva Alaíde. Pedro e
Lúcia casam-se, mas a 'presença' de Alaíde na hora do casamento é percebida
quando Lúcia pede o bouquet, e "Alaíde, como um fantasma, avança em direção
da irmã, por uma das escadas laterais, numa atitude de quem vai entregar o
bouquet. Clessi sobre a outra escada. Uma luz vertical acompanha Alaíde e
Clessi. Todos imóveis em pleno gesto. Apaga-se, então, toda a cena, só
ficando iluminado, sob uma luz lunar, o túmulo de Alaíde. Crescendo da
Marcha Fúnebre. Trevas".
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