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O amor bate em nossa aorta pela poesia de Drummond
Por: Helder Bentes

Em maio de 2007


Considerando que o poeta é um fingidor, não se deve tomar a criação literária como um referencial investigativo de posicionamentos dos autores a respeito de assuntos pertinentes à vida em sociedade. Por isso, a proposta de interpretação que se segue para o poema "O amor bate em nossa aorta", de Carlos Drummond de Andrade não
pretende delimitar suas crenças pessoais sobre o amor, mas antes inferir, a partir de uma lógica intuitiva e supra-racional, pautada também na experiência que forma a consciência empírica dos leitores, quais conceitos de amor se refletem no texto de Drummond e quais as propostas reflexivas trazidas por este texto:

O AMOR BATE NA AORTA

1. Cantiga de amor sem eira
2. nem beira,.
3. Vira o mundo de cabeça para baixo,
4. suspende a saia das mulheres
5. tira os óculos dos homens.
6. O amor, seja como for,
7. é o amor.
8. Meu bem, não chores,
9. hoje tem filme de Carlito!
10. O amor bate na porta
11. O amor bate na aorta,
12. Fui abrir e me constipei.
13. Cardíaco e melancólico,
14. O amor ronca na horta
15. Entre pés de laranjeira
16. Entre uvas meio verdes
17. E desejos já maduros.
18. Entre uvas meio verdes,
19. Meu amor, não te atormentes.
20. Certos ácidos adoçam
21. A boca murcha dos velhos
22. E quando os dentes não mordem
23. E quando os braços não prendem
24. O amor faz uma cócega
25. O amor desenha uma curva
26. Propõe uma geometria.
27. Amor é bicho instruído.
28. Olha: o amor pulou o muro
29. O amor subiu na árvore
30. Em tempo de se estrepar.
31. Pronto, o amor se estrepou.
32. Daqui estou vendo o sangue
33. Que escorre do corpo andrógino.
34. Essa ferida, meu bem,
35. às vezes não sara nunca
36. às vezes sara amanhã.
37. Daqui estou vendo o amor
38. Irritado, desapontado,
39. Mas também vejo outras coisas:
40. Vejo corpos, vejo almas
41. Vejo beijos que se beijam
42. Ouço mãos que se conversam
43. E que viajam sem mapa.
44. Vejo muitas outras coisas
45. Que não ouso compreender

No poema em questão, Carlos Drummond de Andrade nos propõe uma reflexão a respeito do amor. Este sentimento aparece personificado numa cantiga, no “filme de Carlito”, no sujeito que bate à porta, no sujeito que “ronca na horta”, em todas as fases da vida, no sujeito que sobe à árvore e se “estrepa”, enfim, o amor manifesta-se prosopopeicamente em vários elementos que aparecem ao longo do poema. Mas, para melhor compreendermos o que Drummond não ousa compreender, necessário se faz investigar esse texto sistematicamente.

Primeiramente, o amor é comparado a uma cantiga que “suspende a saia das mulheres” e “tira os óculos dos homens” (versos 4 e 5), o amor é um sentimento que “vira o mundo de cabeça para baixo” (verso 3), e isso nos remete à idéia de que o amor é o que move a existência humana, é a motivação das pessoas, ao contrário do que se poderia supor na sociedade do século XX, em que o avanço do Capitalismo sacraliza, no senso comum, a idéia de que “o dinheiro é a mola do mundo”.
 
O amor metaforizado em “cantiga de amor” é simultaneamente a idéia de cortesia - própria das relações amorosas no ocidente, herdada da literatura provençal e transmitida aos brasileiros pela colonização portuguesa – e a idéia de poesia também histórica e culturalmente contida em “cantigas”, sem falar na simbologia própria da palavra “cantiga” que tem a ver com alegria e/ou tristeza, lirismo, enfim, à medida que pode expressar quaisquer sentimentos íntimos e pessoais de seu compositor.

O autor propõe uma conotação erótica que pode nos remeter tanto à sensualidade da dança durante a execução de uma “cantiga de amor” quanto a uma relação sexual iminente (“suspende a saia das mulheres”).

Também faz referência ao canal da afetividade masculina predominantemente visual (“tira os óculos dos homens”) para depois fechar a estrofe dizendo que o amor, de qualquer forma, é simplesmente amor. Esta idéia de definição simples do amor, sem cair no simplório, será retomada ao final do poema: “Vejo muitas outras coisas / Que não ouso compreender”.
A estrofe seguinte é uma estrofe isolada em que o amor aparece como um sentimento no qual se pode refugiar contra a tristeza, haja vista que “choro”, via de regra, simboliza a tristeza. Esta mesma estrofe também mostra a singeleza do amor em pequenas coisas da vida, como um filme de Carlito.
O amor volta a ser personificado na terceira estrofe ( versos 10 e 11 ), batendo na porta e na aorta. Aqui necessário se faz refletir sobre as possibilidades conotativas das palavras “porta” e “aorta”. A porta é uma via de acesso a um espaço fechado. Neste sentido, o amor seria então um sentimento que necessita de abertura para acontecer. A aorta é uma artéria, o principal tronco arterial do corpo, que conduz o sangue do coração, sendo por isso também uma grande via de acesso e comunicação da qual depende a vida.
 
O amor provoca constipação quando a ele nos abrimos, quando permitimos que penetre em nossa aorta, não se trata de Drummond dizer que todos os apaixonados sofrem de “prisão de ventre”, mas sim de que o amor é um sentimento cujos efeitos podem refletir-se em alterações de comportamento e até do funcionamento de nosso organismo, gerando distúrbios de natureza psicossomática, como problemas cardíacos e melancolia (verso 13).

O verso 14 parece uma referência à farsa vicentina portuguesa “O velho da horta”, que dramatiza a história de amor de um velho por uma moça que vai à sua horta colher cheiros para panela. Esta peça do português Gil Vicente revela as seculares sandices que se comete por amor e que não acometem apenas adolescentes solteiros, como se apregoa no senso comum, pois nela um sexagenário casado perde sua horta para uma alcoviteira (Branca Gil), por isso o amor que ronca na horta, entre pés de laranjeira, uvas meio verdes e desejos já maduros (versos 15,16,17 ) parece sugerir uma gradação cujo ponto culminante é seu próprio ronco, simbolizando o estado de sonolência em que o sujeito do amor se encontra, quer esteja entre pés de laranjeira ou uvas verdes, isto é, quando ainda não estamos maduros, porém motivados pela esperança, ou na maturidade dos desejos. Em suma, em qualquer fase da vida, o amor nos faz adormecer em meio aos nossos cultivos em favor da sobrevivência ( “o amor ronca na horta” ).

Na estrofe seguinte o poeta parece confirmar a hipótese interpretativa proposta na análise dos aspectos do conteúdo da estrofe anterior, pois invoca seu próprio amor a não se atormentar diante das limitações próprias da velhice “entre uvas meio verdes” e a concentrar-se nas compensações propostas pelas curvas geométricas do amor e de “certos ácidos” que “adoçam / A boca murcha dos velhos” para mostrar que a capacidade de amar não se perde junto com a juventude, exatamente como na farsa vicentina. O amor contraria as convenções sociais segundo as quais (re)produção e participação sociais seriam os diferenciais entre a fase adulta e outras fases do ciclo vital. Drummond nos mostra que, quando o amor acontece, as crenças e valores convencionais se desmoronam porque o amor é passível de acontecer em qualquer fase da vida.

É interessante notar que, neste poema, Drummond propõe um passeio do amor pelas fases da vida e parece estar a fim de induzir seu leitor à conclusão de que o amor independe de idade ou até mesmo de sexo à medida que, no poema, o amor se corporifica em um andrógino, depois de superar barreiras (“o amor pulou o muro”), de investir seus esforços em direção aos frutos que esperava (“O amor subiu na árvore”) e de se expor a muitos riscos (“Em tempo de se estrepar”). Finalmente, a ferida provocada pelo amor, ou a ferida em que se pode transformar o amor, pode ou não sarar, numa clara referência às inúmeras variáveis que circundam as relações amorosas (versos 34, 35, 36).

Na última estrofe do poema o amor se irrita e se desaponta em função da ferida em que se transformara, mas ao lado disso, há as coisas que o poeta não ousa compreender, para mostrar a dimensão de complexidade do amor à medida que este é um fenômeno humano cuja beleza se reflete nos corpos, almas, “beijos que se beijam”, “mãos que se conversam / E que viajam sem mapa” (versos 42, 43); as mãos simbolizam os instrumentos de trabalho que constroem e dialogam entre si, referindo-se à linguagem do amor, que nem sempre é verbal, mas invariavelmente de natureza instintiva e sensível, idéia figurada na viagem sem mapa.

 
 
 
 
 
 

 

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