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Nu Nery: O poder que Ismael pediu a Deus
Por: Helder Bentes

Em agosto de 2007









A peça inspirada na vida do poeta paraense Ismael Nery foi sucesso de público e de crítica em Abril de 2006, por ocasião de sua estréia. Depois contou com uma segunda temporada de mais cinco dias no Teatro Waldemar Henrique, em Belém, e seguiu para o Festival Brasileiro de Teatro em Itajaí (Santa Catarina). O espetáculo representou a Região Norte no evento. Em junho deste ano, NU NERY seguiu em turnê por São Luis, Natal, Recife e Salvador, dentro do projeto Caravana Funarte Petrobras de Circulação Nacional.

Agora Nu Nery ganha mais uma importante repercussão nacional. Escrita por Carlos Correia Santos e montada pelo Grupo de Teatro Palha, a peça baseada na vida e obra do pintor e poeta paraense Ismael Nery acaba de vencer um dos mais disputados editais artísticos do país, o Caixa Cultural, coordenado pela Caixa Econômica Federal. A vitória permitirá que a montagem seja apresentada em Brasília, no final do ano. Na lista dos contemplados com o Caixa Cultural na categoria teatro, Nu Nery divide cena com grandes companhias e entidades brasileiras, como o Grupo Teatral Lauro Góes, a Patrícia Travassos Produções, a Tapa Produções Artísticas, Renato Borghi Produções Artísticas, CAL e a Cooperativa Paulista de Teatro.

Leia abaixo as impressões críticas de Helder Bentes sobre a peça e saiba por que o eminente crítico de arte a recomenda:

O hibridismo de linguagens é apontado pelos entusiastas da tecnologia digital como uma das marcas deste momento da história da comunicação humana. Hoje há uma concomitância de linguagens facilitada por este tipo de tecnologia e isso acarreta também mudanças nas práticas de leitura, variáveis de acordo com o suporte dos textos e com o tipo de linguagem neles empregado. Hoje temos uma predominância da leitura fragmentada, conseqüência da amplitude e da rapidez com que se processam as informações em função dessa tecnologia.
 
Se antes a cultura brasileira era um universo não facilmente passível de delimitação por parte de nossos antropólogos, hoje esta dificuldade torna-se ainda maior por causa da cultura em bites e, ao lado disso, os efeitos purgativos de uma leitura contemplativa e a apreciação estética da linguagem artística vão se tornando cada vez mais agonizantes, situação agravada pela indústria cultural que “cria” a massa. Mas quem disse que o homem depende da tecnologia digital para criar linguagens? Quem for ao Teatro Waldemar Henrique assistir à peça NU NERY, escrita pelo poeta Carlos Correia Santos e dirigida por Paulo Santana, não sairá de lá achando que a linguagem híbrida, enquanto matéria-prima de arte, é mérito da cibercultura.

Estive com meus alunos universitários na galeria do Memorial dos Povos, no dia 06/04 do ano passado, data em que se relembrava a morte de Ismael Nery, assisti à peça e pude registrar em minhas retinas uma articulação de linguagens sem precedentes na história da dramaturgia paraense. O texto de NU NERY não é apenas um texto, é o texto cuja matéria-prima é a linguagem concebida amplamente, onde iluminação, figurino, cenário e o próprio espaço físico onde se aprecia o espetáculo são otimizados de modo a estabelecer com a linguagem performática uma coerência recorrente na articulação do texto, feito de recortes poéticos de Ismael e Adalgisa Nery, de Murilo Mendes e do próprio Carlos Correia Santos, uma composição harmônica matizada pelo Ismael Nery desenhista, pintor, poeta, filósofo e ser humano. Um hibridismo sui generis cujo propósito parece ser desenterrar a ousadia que marcara a trajetória de Nery e que fora ignorada por seus contemporâneos.
 
Não há como assistir a NU NERY e sair do teatro isento da obrigação de desnudá-lo, a peça proporciona essa abertura, uma lacuna que necessita de um preenchimento concretizador providencial, haja vista a Poesia apelativa de Ismael Nery, em que brada o poeta: ”Dai-me, como vós tendes, o poder de criar corpos para as minhas almas”. NU NERY é uma resposta a esse apelo, uma resposta que se reflete no triângulo, que eu não diria apenas amoroso, entre Ismael, Adalgisa e Murilo Mendes, uma pirâmide relacional em cujo topo está a inquietude de Nery, uma inquietude não muito diferente das inquietudes humanas e por isso mesmo divinizada.

Nós, seres humanos, somos predominantemente tiranizados pelas estruturas sociais que construímos de modo que é recorrente entre nós a crença de que, se fazemos algo bom, é porque nos motiva o espírito divino; se fazemos algo mau, nos motiva o espírito maligno. Por isso, Ismael Nery se confessa diferente de Deus e do diabo, é um ser humano implacável e crescente, multifacetado e imcabível numa porção limitada de matéria. Essa dimensão plural de Ismael Nery, que se situa aquém e além do sobrenatural, certamente foi captada por Carlos Correia num debruçar sobre a obra do poeta. Da mesma forma, a lógica supra-racional que rege as cenas evidencia essa pluralidade única do ser humano Ismael Nery e, assim, a criação, não a criatura, reflete o criador.
 
Se a Belém dos primórdios do século XX não soube prestigiar a criação artística de Ismael Nery, a Belém do começo do século XXI tem no trabalho de Carlos Correia Santos a oportunidade de contemplar, numa época de leitura movente, o signo contemplável de Ismael Nery.

 

 
 
 
 
 

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