|
20
anos sem um poeta que nos diga: "Não se mate"
Por:
Helder Bentes
Em setembro de 2007
Há 20 anos, aos 84 anos de idade, morria o poeta Carlos Drummond de
Andrade. Um simples texto para um site de Literatura é pouco para tratar de
Drummond e de sua obra, mas, em homenagem à memória dessa "alma nossa gentil
que se partiu", quero hoje comentar o poema:
Não se mate
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê,
pra quê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá.
Nesse poema, Carlos Drummond de Andrade fala consigo mesmo como se fosse uma
segunda pessoa. Pode-se distinguir o eu do poeta e o eu do poema em “Não se
mate”. O eu do poema é a voz que profere o discurso poético. O eu do poeta é
a pessoa com quem se fala, representada pelo vocativo “Carlos”.
A primeira estrofe revela a impossibilidade de se ter controle sobre o amor
e sua incompatibilidade com o mundo moderno, pois o amor é imprevisível.
Essas reflexões se processam no tempo, pois o poeta escreve numa sexta-feira
(“depois de amanhã é domingo”). A sexta-feira é o último dia útil da semana,
simboliza um momento de transição em que a passagem do tempo tem a ver com
as mudanças, que geram inquietude, fazendo do amor um sentimento cujo futuro
não se define.
Na segunda estrofe, o eu do poema faz um apelo ao eu do poeta para que este
não se mate diante das inquietudes provocadas pelo amor. O amor é
irresistível, seria inútil resistir-lhe. Isso revela a força do amor sobre a
fragilidade humana. No entanto, o ser humano deve preservar-se e não se
deixar levar pelas inquietudes do amor.
A terceira estrofe é um reflexo das próprias inquietudes, o caos interno da
alma romântica, que se debate diante da fugacidade, da efemeridade, da
instabilidade, das carências, desejos e vontades. È uma estrofe ansiosa em
cujo conteúdo revela-se o tempo que passou.
O tempo avança, mas o eu de Carlos permanece em uma “sublimação de
recalques”, excluindo da consciência idéias, sentimentos e desejos que o eu
não admite, mas que fazem parte da vida psíquica, suscitando distúrbios.
A idéia do recalque sublimado tem a ver com a alma telúrica descrita na
estrofe anterior, pois a palavra “recalque” também pode significar, no
âmbito da engenharia civil, um rebaixamento da terra ou da parede após a
construção de uma obra.
Trazendo essa conotação para o universo simbólico da Literatura, é como se a
alma de Carlos fosse construída e depois destruída. Esse processo inverso da
construção de seu próprio eu lhe é destrutivo, mas sua dimensão construtora
lhe é revelada no discurso do eu do poema.
Nessa mesma estrofe, o caos é representado pelo “barulho inefável”, pelas
“rezas” e “santos que se persignam”, simbolizando a limitação humana diante
das potências do amor.
O poeta busca no sobrenatural a ajuda para ordenar seu caos interno. Os
santos que se persignam também comportam os recalques de que o poeta fala
acima. Na cultura popular, o ato de persignar-se é uma forma de expulsar o
mal. O eu do poeta desdobra-se em santos que se persignam para expulsar de
sua própria consciência as conseqüências do amor.
As “vitrolas” e os “anúncios do melhor sabão” podem ser lidos como os
reflexos da reprodução (vitrola) de valores capitalistas herdados da
sociedade consumista (anúncios) do século XX e que também ressoam nesse caos
interno, influenciando de alguma forma no estado de espírito do poeta. Esses
“barulhos” aparecem no poema como uma inutilidade (“ninguém sabe de quê, /
pra quê”).
A estrofe seguinte é a proteção paternal do eu do poema sobre o eu do poeta,
a imagem desta proteção é o eu do poema vendo o poeta caminhar “melancólico
e vertical”. A idéia da verticalidade é significativa haja vista a
simbologia que perpassa sua vertente oposta, a horizontalidade no universo
do amor. A horizontalidade no amor é símbolo dúbio de satisfação, descanso,
prazer, alegria, erotismo, sensualidade e realização. Mas também de queda,
dor, tristeza, depressão, descontentamento e cansaço emocional. A sublimação
de tudo isso, da total ausência de horizontalidade no amor, é a
verticalidade, é o homem de pé, erguido como uma palmeira, caminhando de tal
modo que “ninguém sabe nem saberá”.
|
|