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A genialidade do Anjo Pornográfico em frases soltas
Por: Helder Bentes

Em setembro de 2007









"Uma história de adultério. O marido chega em casa, entra no quarto, vê a mulher nua na cama e o vulto de um homem pulando pela janela e sumindo na madrugada. O marido pega uma faca e liquida a mulher. Depois ajoelha-se e pede perdão" – com este enredo o pernambucano Nelson Rodrigues revela-se, com apenas 8 anos de idade, num concurso de redação escolar, o iminente escritor de romances, contos, crônicas e textos para teatro, televisão e cinema. Todos estes gêneros unificados pela "sacanagem", que desafia as teimosas tentativas de institucionalizar a repressão aos instintos impublicáveis do homem.

Infelizmente aqui não dá para reproduzirmos uma das obras de Nelson e comentar. Mas, aproveitando o gancho de seu aniversário de nascimento, dia 23 de agosto, quando então ele completaria 95 anos de idade, quero comentar algumas das frases atribuídas a ele e coligidas por Ruy Castro em "Flor de Obsessão" (São Paulo, Cia. das Letras, 1997):

"A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem" – com esta crença ele certamente chegou aonde chegou em termos literários, pois nunca se deixou levar pelo cordão de puxa-sacos que normalmente cercam aqueles que se destacam minimamente em tudo o que fazem.
 
"O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade" – que o digam os antigos (como eu) militantes da esquerda. Mas tem frase também para os que chegaram ao poder com o trabalho da militância: "Assim como há uma rua Voluntários da Pátria, podia haver uma outra que se chamasse, inversamente, rua Traidores da Pátria".

Esta cai como uma luva para as aeromoças brasileiras, em tempos de crise aérea: "Há na aeromoça a nostalgia de quem vai morrer cedo. Reparem como vê as coisas com a doçura de um último olhar".

Atenção senhores ministros e secretários de governo, esta é para vós: "O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas".

"A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades" – contra a ditadura da idade, que idealiza a juventude como a melhor fase da vida, a ponto de fazer muita gente ter vergonha de admitir sua verdadeira idade.

"O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda" – há tanto despreparo para a apreciação das artes, há tanta falta de iniciação em arte, que quanto mais uma obra de arte for classificada como imbecil, maior pode ser seu valor artístico.

Falando a respeito da inversão de valores que imperava no século XX: "Em nosso século, o grande homem pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta".

"Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém" – para nos fazer lembrar de que a fidelidade exclusivista, que visa a sustentar as relações fechadas e a posse continuada dos bens, será sempre ameaçada pelo adultério que existe (em abundância!) em todas as sociedades nas quais se tem a monogamia como "o certo".

"Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível" – aqui a necessidade de se fugir da rotina nas relações conjugais.

Finalmente, uma frase rodriguiana que serve a todos nós: "Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza."

E outra que define bem o foco narrativo de Nelson Rodrigues: "Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico".

 

 
 
 
 
 
 

 

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