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Um
espelho, alguém sem máscaras ou sem papel social
Por: Mary Ellen Farias dos
Santos
Em novembro de 2007
Um espelho revelador: máscaras removidas, o desejo de ser o outro e do
outro ser o próprio eu.
Ao analisar os contos de Machado de Assis e Guimarães Rosa, O Espelho,
o leitor descobre-se inserido em devaneios que revelam os sentimentos dos
narradores-personagens. Começa então a ser traçado um "esboço de uma teoria
da alma humana", como já diz Machado no sub-título do mesmo conto.
Inicialmente, o objeto que faz os contos semelhantes é o próprio espelho,
não me refiro ao material, mas sim, aquilo que se busca ao se olhar/admirar
diante de um objeto que reflete feições em meio à solidão.
Diante do espelho, a personagem de Guimarães Rosa entra numa eterna procura,
pois não consegue reconhecer aquele que está diante dele sem máscaras. "O
caçador de meu próprio aspecto forma, movido por curiosidade, quando não
impessoal, desinteressada; para não dize o urgir científico".
O mesmo acontece em O Espelho, de Machado de Assis, lembrando que
este fora escrito antes, em 1882 e que aqui acontece o reconhecimento do
outro refletido: "A realidade das leis físicas não permite negar que o
espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições... o
vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum
contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma
exterior".
Nestes trechos, pode-se perceber o quanto os narradores-personagens buscam
algo. Deste modo, o leitor é levado à reflexão da frase de Guimarães Rosa:
"Você chegou a existir?". É importante levar em consideração que enquanto a
personagem de Guimarães busca a sua verdadeira identidade (sem máscaras), a
personagem de Machado não se reconhece sem ela e capitula à tentação de ser
o que os outros valorizam (sem papel social).
Ao perseguir uma realidade experimental as personagens deixam cair suas
"máscaras". No texto de Guimarães o narrador-personagem revela o que sente
enquanto está diante de sua verdadeira identidade: "Se por exemplo, em
estado de ódio, o senhor enfrenta objetivamente a sua imagem, o ódio reflui
e recrudesce, em tremendas multiplicações: e o senhor vê, então que, de
fato, só se odeia é a si mesmo".
Já o narrador-personagem de Machado pensa diferente: "Olhava para o espelho,
ia de um lado para o outro, recuava, gesticulava sorria, e o vidro exprimia
tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui
outro". Este narrador-personagem não quer ser outro, apenas ele mesmo.
Contudo,
nestes trechos, pode-se perceber que a solidão leva os
narradores-personagens a temerem a loucura, por terem por companhia somente
o próprio reflexo no espelho. Eles rendem-se e "conversam" com o espelho
para poder ser e ter alguém. Parafraseando Machado, duas almas: uma que olha
de dentro para fora, enquanto que a outra olha de fora para dentro.
É como se o reflexo no espelho, não fosse apenas um reflexo, mas a outra
metade para a personagem de Machado, pois "quem perde uma das metades, perde
naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da
alma exterior implica a da existência inteira".
Já para a personagem de Guimarães esta existência perdida é buscada e a
falta daquele ser muito bem conhecido por ele e todos, faz com que ele
recorra ao outro, o ser mascarado; "São para se ter medo, os espelhos", pois
sua verdadeira face não é ele.
Aqui surge o eterno conflito de "sou o que sou e quem sou", como por exemplo
em a história de Robert Louis Stevenson, O Médico e o Monstro: o que
há em mim e que eu não conheço, o meu lado bom e mau, a minha outra face.
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