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O lirismo nada comedido de Elisa Lucinda
Por: Helder Bentes*

Em dezembro de 2007



A criação literária e sem limites de uma poeta capixaba.



Apresento-lhes a poeta capixaba Elisa Lucinda, a Selma da novela “Páginas da vida”. Ao me referir a Elisa Lucinda, usarei o termo poeta em lugar de poetisa, pois desde que Olga Savary (prima de Carlos Drummond de Andrade) me repreendeu numa entrevista, quando usei poetisa, não ouso mais utilizar essa palavra para designar as mulheres poetas.
 
Para a prima de Drummond, poetisa é um termo inadequado porque a terminação “-isa” seria pejorativa. Lembrei-me de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor"; de Chico Buarque, que tão bem incorpora o eu feminino; e de tudo o que se faz na criação literária desde as cantigas medievais portuguesas. E concordei que "poeta" deve ser um substantivo comum de dois gêneros, ou seja, aquele que tem uma única forma tanto para o masculino quanto para o feminino e cuja distinção de gênero marca-se pelo artigo: o poeta / a poeta.

Mas vamos à poesia de Lucinda. Proponho aqui uma leitura de “Escolha”, poema declamado no álbum O semelhante (1997):


Escolha

Eu te amo como um colibri resistente
incansável beija-flor que sou
batedora renitente de asas
viciada no mel que me dás depois que atravesso o deserto.
Pingas na minha boca umas gotas poucas
do que nem é uma vacina.
Eu uma mulher, uma ave, uma menina…
Assim chacinas o meu tempo de eremita:
quebras a bengala onde me apoiei, rasgas minhas meias,
as que vestiram meus pés
quando caminhei as areias.

Eu te amo como quem esquece tudo
diante de um beijo:
as inúmeras horas desbeijadas,
os terríveis desabraços,
os dolorosos desencaixes
que meu corpo sofreu longe do seu.
Elejo sempre o encontro,
Ele é o ponto do crochê.
Penélope invertida,
nada começo de novo,
nada desmancho,
nada volto.

Teço um novo tecido de amor eterno
a cada olhar seu de afeto,
não ligo para nada que doeu.
Só para o que deixou de doer tenho olhos.
Cega do infortúnio,
pesco os peixes dos nossos encaixes,
pesco as gozadas,
as confissões de amor,
as palavras fundas de prazer.
as esculturas astecas que nos fixam
na história dos dias.

Eu te amo.
De todos os nossos montes
fico com as encostas.
De todas as nossas indagações
fico com as respostas.
De todas as nossas destilarias
fico com as alegrias.
De todos os nossos natais
fico com as bonecas.
De todos os nossos cardumes
as moquecas.


O Eu desse poema fala com a pessoa amada, comparando-se, no ato de amar, ao beija-flor que teima em bater asas contra a solidão. Não é assim que o amor acontece?
A metáfora da ave refere-se ao hábito romântico de voar, tirar os pés do chão ou, como se diria popularmente, ”viajar”. Quando se ama, deixa-se de ter um suporte (quebras a bengala onde me apoiei). Perde-se a proteção dos alicerces contra o desequilíbrio emocional próprio da solidão-deserto (rasgas minhas meias / as que vestiram meus pés / quando caminhei as areias).

Na segunda estrofe, temos a fraqueza de memória romântica. Como diria João Bosco, “o amor, quando acontece, a gente esquece logo que sofreu um dia”. Um beijo é suficiente para se esquecer “as inúmeras horas desbeijadas”, um abraço basta para esquecer os “desabraços”.
 
A autora quebra as oposições beijos/desbeijos e abraços/desabraços ao mencionar os “dolorosos desencaixes”, sugerindo o encaixe prazeroso entre corpos que estavam longe um do outro, mostrando como o erotismo pode virar poesia nas entrelinhas de um texto.
Elisa Lucinda é poeta cuja linguagem provoca o leitor e o motiva ao erotismo romântico e a reflexões filosóficas sobre o ato de amar (Pingas na minha boca umas gotas poucas do que nem é uma vacina). Todo romântico alimenta-se de gotas inefáveis cujo efeito virulento, oposto ao de uma vacina, consome o tempo de seu sofrimento.
A escolha é a do encontro amoroso contra a necessidade do desencontro definitivo, por ser o desencontro provavelmente mais freqüente do que se deseja (Elejo sempre o encontro / Ele é o ponto do crochê).
 
A poeta relaciona seu texto a um clássico da literatura universal - a Odisséia, de Homero - ao criar um eu que se compara a Penélope, personagem da mitologia grega, esposa de Ulisses, guerreiro de Tróia que pode perdê-la, pois o pai de Penélope quer casá-la novamente. Ela, porém, a fim de não frustrar a vontade do pai, diz-lhe que se casará com outro somente após concluir o tecido de uma colcha que fazia pela manhã, mas desmanchava à noite, para ganhar tempo à espera do retorno de Ulisses.
 
Por isso a referência ao ponto do crochê como metáfora do encontro. A diferença entre o Eu de Escolha e a personagem mitológica é que Penélope desmanchava a colcha para começar de novo, e o Eu de Escolha nada começa de novo, nada desmancha, nada volta, mas detém-se no ponto do crochê, o encontro, o meio termo que nunca é contemplado na sociedade, que não ata e nem desata, não... e não sai de cima, entendem?
Em nossa cultura, ainda somos “namoro ou amizade”, “casamento ou separação”, apesar de vivermos a era do fica, em que a realidade exige um meio termo entre as classificações do complexo ato de amar.

Complexo porque amar nos ensina a perdoar, a desmanchar nossos tecidos diante de um olhar, nos faz esquecer as desgraças e a dor, e faz de nós esculturas astecas que nos fixam nas histórias dos dias, tecendo um novo tecido de amor eterno, numa dimensão espaço-temporal cuja realidade já não comporta o amor em toda sua plenitude.
Esta “Escolha” de Lucinda é a das coisas boas de uma relação amorosa, ilustradas pelas imagens de encostas, respostas, alegrias, bonecas e moquecas; em detrimento da realidade, que racionalmente determinaria uma Penélope decidida a esperar ou a pôr fim à espera. Essa realidade é representada no texto pela imagem de montes, indagações, destilarias, natais e cardumes.

Elisa Lucinda é uma poeta maravilhosa, um nome ímpar no cenário da Literatura de um país ainda em transição secular, onde a transitividade da vida nos faz esquecer sua transitoriedade ou compensá-la em outras “criações” menos originais, pra não dizer bregas mesmo.
 
Quem quiser saber mais sobre o trabalho de Lucinda como poeta deve procurar pelos seguintes títulos (lembrando que poesia também acontece em prosa): O semelhante; Lili, a rainha das escolhas; Contos de vista; Euteamo e suas estréias; O menino inesperado; O famoso órfão; A menina transparente e o recente A fúria da beleza, em cuja leitura recomendo lambe-lambe, na página 147, uma lambida na imaginação criadora própria ou de outrem, vanguardando a publicação em poema (pois Nélson Rodrigues já o fizera em prosa) de nossos instintos impublicáveis, mas... Por que mesmo impublicáveis?
Quem conhece Poética, de Manuel Bandeira, sabe que, se nosso poeta estivesse vivo, se realizaria no lirismo nada comedido de Elisa Lucinda.

 
 
 
 
 
 

 

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