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Leitura da Literatura: Forma e Função para os SentidosPor: Helder Bentes Em janeiro de 2008 Olavo Bilac em soneto: A forma e a função para os sentidos. A um poeta Longe do estéril turbilhão da rua, Beneditino escreve! No aconchego Do claustro, na paciência e no sossego, Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua! Mas que na forma se disfarce o emprego Do esforço; e a trama viva se construa De tal modo, que a imagem fique nua, Rica mas sóbria, como um templo grego. Não se mostre na fábrica o suplício Do mestre. E, natural, o efeito agrade, Sem lembrar os andaimes do edifício. Porque a beleza, gêmea da Verdade, Arte pura, inimiga do artifício, E a força e a graça na simplicidade. Neste soneto de Olavo Bilac temos a impressão de que fazer poesia é preocupar-se exclusivamente com a forma, mas os aspectos formais de um poema não são os únicos elementos da composição responsáveis por suportar o seu sentido. Se um poema é, como um texto, uma unidade portadora de sentido, não é menos verdade que nesta unidade os sentidos são múltiplos e resultam de uma articulação lexical, sintática, sonora e semântica. Este processo articulatório sobre o qual se alicerça o “templo grego” da poesia é o que Bilac descreve no soneto acima. É importante, no entanto, salientar que a beleza de que nos fala o poeta só pode tratar-se da beleza estética que acompanha a obra de arte. Esta beleza, segundo o poeta, é “gêmea da Verdade”, logo, não pode tratar-se de uma verdade histórica, dotada de verdade. A poesia que se reflete em textos literários, quer em prosa, quer propriamente poéticos, não pode ser tomada como manifestação concreta da realidade, pois a Verdade, que é irmã gêmea da beleza, não tem autonomia material e está vinculada ao processo criador, que é não somente a criação literária, mas também sua apreciação. Pois o leitor, desde o século XVIII, alcançou maior visibilidade no triângulo “escritor – obra – leitor” que sintetiza o sistema literário. Antoine Compagnon, em “O demônio da teoria” nos adverte para a possibilidade de os textos literários funcionarem como suporte ideológico, haja vista ser esta uma propriedade da linguagem, que tanto pode servir à representação da realidade, quanto à defesa de interesses de classes sociais antagônicas nas estruturas sócio-econômicas. A literatura não está isenta desta sustentabilidade do discurso ideológico, pois sua matéria-prima é a linguagem. Além disso, a sociologia da leitura tem revelado que os processos de interpretação da literatura apóiam-se basicamente em duas perspectivas: uma que leva em conta a verdade histórica e busca no passado a configuração e o fortalecimento de certas práticas de criação e apreciação literárias e tende a conservá-las e a conferir-lhes propriedades que as tornam ortodoxas, criando a noção de tradição literária; outra que se apóia no presente e tem por finalidade compreender quais os procedimentos de criação literária são dignos de relevância e difusão institucional. A implicância disso é que essas duas perspectivas favorecem a formação do cânone literário, noção perigosa para a apreciação literária. Perigosa porque a formação do cânone orienta-se pela necessidade burguesa de mistificar a exploração e a discriminação social, a fim de manter o ethos capitalista e sustentar a ideologia da classe dominante. Isso ocorre através da institucionalização de algumas crenças românticas (no sentido de não-realistas) acerca de temas de interesse dominante. Tal difusão institucional redunda em práticas de leitura que, de certa forma, limitam o autor e sua obra, pois a apreciação torna-se igualmente limitada, como a visão de mundo que a orienta, donde a perniciosidade aqui mencionada. Segundo Proust "aquilo de que nos lembramos, aquilo que marcou nossas leituras da infância é o cenário no qual nós lemos o livro, as impressões que acompanharam nossa leitura. A leitura tem a ver com empatia, projeção, identificação. Ela maltrata obrigatoriamente o livro, adapta-o às preocupações do leitor”. Essa posição de Proust é a base para supor que as formas de abordagem da poesia precisam ser revistas à luz de uma interpretação que valorize a visão do leitor. O leitor é o sujeito da leitura, o agente da ação ou da prática de leitura, a cujo ser vinculam-se as peculiaridades espaço-temporais, empíricas, humanas, sociais, econômicas e psicológicas. Para isso, necessário se faz despir o leitor da representação de uma categoria social delimitada e focalizar a leitura, pois o ato de ler se constitui um processo de apropriação do texto, mas o relacionamento que daí se desenvolve entre leitor e texto não é passivo, da mesma forma que não deveria sê-lo nas relações sociais. O que tem ocorrido em grande escala, em aulas de literatura nos níveis de ensino fundamental, médio e, por incrível que pareça, até superior, é que a lógica da dominação social tem sido transportada para a leitura e para a apreciação das obras de arte literária. O leitor, porém, não é mero receptáculo de procedimentos vigentes na sociedade e seu comportamento, singular ou coletivo, não é modelar da sociedade. Ele absorve ou reproduz as práticas vigentes, mas as incorpora através da interpretação e, ao interpretar, ele interfere no mundo que se lhe aparece sob a forma de um texto. Não há, nesta relação entre leitor e texto, uma experiência direta do real e, neste sentido, o significado do texto, depende do discurso e de sua forma. |
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