|
Quem
é sua Marília? – reflexões sobre o amor em soneto de Bocage
Por:
Helder Bentes
Em fevereiro de 2007
Manuel Maria Barbosa du Bocage: A poesia portuguesa em sonetos.
Manuel Maria Barbosa du Bocage é uma das maiores expressões da poesia
portuguesa do século XVIII, especialista na arte de compor sonetos, assim
como Camões, Florbela Espanca e o brasileiro Vinicius de Moraes.
Lembro-me das entrevistas que dei ao também poeta Carlos Correia Santos nos
idos tempos do Café com Verso e Prosa (que, aliás, faz muita falta em
Belém), em que falei do talento desses três autores para compor sonetos.
Pra quem não sabe, o soneto é um tipo de composição poética de 14 versos
(linhas) divididos em quatro estrofes (subconjuntos de versos), sendo as
duas primeiras quartetos (quatro versos) e as duas últimas tercetos (três
versos).
Você sabia que há técnicas de decomposição poética que medem a extensão de
um verso, dividindo-o em sílabas poéticas?
São sílabas diferentes das sílabas sonoras que aprendemos na alfabetização e
têm a ver com o ritmo impresso nos poemas, herança das raízes musicais da
poesia que somente a partir do século XV separou-se da música e tornou-se
arte autônoma.
Não vou ensinar aqui como se faz a escansão de um poema, a menos que alguém
me pergunte no foro deste post. Mas compor um texto preocupando-se, ao mesmo
tempo, com sua configuração formal e com seu conteúdo de modo a garantir-lhe
o status literário não é tarefa para qualquer um. Vejamos como Bocage o
fazia com talento:
Ó tranças, de que Amor prisão me tece,
Ó mãos de neve, que regeis meu fado!
Ó Tesouro! ó mistério! ó par sagrado,
Onde o menino alígero(1) adormece!
Ó ledos(2) olhos, cuja luz parece
Tênue raio do sol! Ó gesto (3) amado,
De rosas e açucenas semeado
Por quem morrera esta alma, se pudesse!
Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter (4) suspira!
Ó perfeições! Ó dons encantadores!
De quem sois?... Sois de Vênus?(5) -
É mentira; Sóis de Marília, sois de meus amores.
Trata-se de vocativos de louvor à mulher amada, que aqui se chama Marília,
mas pode ter o nome que você quiser dar a quem, para você, for tranças que
teçam prisão de Amor, a alguém cujas mãos de neve (ou não) rejam seu fado
(destino), a quem lhe for tesouro e mistério, o par sagrado, em cujos braços
você – "menino ligeiro" – adormece.
Na 2ª estrofe, Bocage refere-se à luz de "olhos risonhos" comparando-a à luz
do sol, ao rosto (palavras como "gesto" eram amplamente utilizadas como
"rosto" na poesia clássica) amado e semeado de rosas e açucenas (lírios).
Perceba que o rosto da mulher não é feito de flores, mas nele há sementes de
flores. Isso nos remete ao potencial de tudo o que pode ser metaforizado em
flor no rosto da mulher amada. Para entender melhor isso, pense no rosto de
alguém a quem você ama e, em seguida, em tudo o que você lembra, imagina,
quer, pensa ou sente ao olhar para este rosto. Assim é fácil compreender a
emoção impressa no "gesto amado de rosas e açucenas semeado". O núcleo da
metáfora é o particípio "semeado".
Outro detalhe importante é o emprego do mais-que-perfeito."morrera" em vez
do futuro do pretérito "morreria" (verso 8). Significa que, mesmo sem poder,
de algum modo o poeta já "morrera" em modo-tempo mais que perfeito pelo
"gesto amado". È a prática do amor que desafia as condições ordinárias ("se
pudesse"), o tempo e o modo do que é loucura para o mundo, mas sabedoria na
lógica divina do amor.
Quem é "certinho" no amar?
Quem ama de forma sisuda e disciplinada, na verdade, não ama, porque o amor
é porra-louca mesmo!
No amor, um riso nos tira a paz, os maiores deuses são destronados e
suspiram por favores de amor.
Lembro-me de Gaiarsa, para quem o amor é a única força capaz de desfazer a
divisão de classes criada pelo sistema. E lembro-me também daquelas famílias
babacas que herdaram passivamente a política do dote matrimonial e se acham
no direito de escolher esposas e maridos para seus filhos e filhas.
Lembro-me dos jovens que, não se conhecendo, aderem a esses critérios que
visam a destronar o amor para coroar o rei-dinheiro, num terreno que nunca
lhe pertenceu.
Quando se ama de verdade, Vênus (a deusa da beleza e do amor) tem a face de
nosso objeto de amor (mesmo que seja um homem). As perfeições e os dons
encantadores pertencem unicamente ao nosso objeto de amor. E nosso amor
multiplica-se e pluraliza-se numa forma densa, fechada, metrificada,
rítmica, projetada, sonora e deslumbrante como um soneto.
|
|