Pesquisa personalizada
 

 











   

 

 

   

.: Publicidade :.

Hipérbatos e dicionários: primeiros passos na análise de um poema
Por: Helder Bentes

Em fevereiro de 2008






Aprenda a analisar um poema de Bocage, poeta português ligado ao arcadismo.

 



Este poema é do poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage, que é um dos autores indicados nos programas de vestibular de muitas faculdades paraenses:

De suspirar em vão já fatigado,
Dando trégua a meus males, eu dormia;
Eis que junto de mim sonhei que via
Da Morte o gesto lívido e mirrado:

Curva fouce no punho descarnado
Sustentava a cruel, e me dizia:
«Eu venho terminar tua agonia;
Morre, não peneis mais, oh desgraçado!»

Quis ferir- me, e de Amor foi atalhada,
Que armado de cruentos passadores,
Aparece, e lhe diz com voz irada:

«Emprega noutro objeto os teus rigores,
Que esta vida infeliz está guardada
Para vítima só de meus furores.»

Na poesia portuguesa do século XVIII já era muito comum a utilização de hipérbatos (figuras de linguagem caracterizadas pela inversão da ordem mais comum de construção de frases em Português). Quando você fala, você pode não perceber, mas emite primeiro o sujeito, depois o verbo, depois seu complemento, como no trecho: "...esta vida infeliz (sujeito) está (verbo) guardada (complemento, no caso, do sujeito, também conhecido como predicativo).
 
Essa ordem mais comum é chamada ordem direta e qualquer subversão dela é chamada ordem inversa ou hipérbato. Os hipérbatos são geralmente usados em poesia para se obter o recurso sonoro da rima, para uniformizar a métrica entre os versos (linhas de um poema que se podem completar como frase somente noutro verso).
Ao analisar um poema, é importante você fazer uma primeira leitura para familiarizar-se com o texto, marcando as palavras cujo significado você desconhece para consultá-las no dicionário e, finalmente, tentar desfazer os hipérbatos que houver, passando-os para a ordem direta.

Nas sentenças em que se tem adjetivo e substantivo, lembre-se de que, no Português, os adjetivos são determinantes e, portanto, é mais comum que venham depois do substantivo.

Enfim, vamos reescrever o poema de Bocage na ordem direta – já consultando o dicionário – e vocês vão ver como a mensagem fica muito mais clara.

Eu dormia, dando trégua a meus males, já fatigado (cansado) de tanto suspirar em vão. Eis que sonhei que via o gesto lívido (azulado) e mirrado (seco) da morte junto de mim. A cruel sustentava foice curva no punho (entre o antebraço e a mão) descarnado (sem carne) e me dizia: «Eu venho terminar tua agonia, morre, oh desgraçado, não peneis (sofrais) mais!». Quis ferir-me e foi atalhada (cortada) de (por) amor que aparece armado de passadores cruentos (sangrentos) e lhe diz com voz irada: «Emprega os teus rigores noutro objeto, que esta vida infeliz está guardada para vítima só de meus furores.»
Viram? O amor vence a própria morte na propriedade de acabar com a vida dos amantes. O poema todo é a versão artística da hipérbole (figura de exagero) "morrer de amor"!

É lógico que uma análise literária propriamente dita vai muito além.

Pela própria natureza do texto artístico, é muito difícil esgotarem-se as possibilidades significativas de um poema, pois há outros critérios subjetivos que influenciam, não na qualidade artística do texto, mas na interpretação e nos sentimentos que ele desperta em cada leitor, em cada momento, etc.

Mas os primeiros passos são esses e exigem um conhecimento mínimo de sintaxe, um vocabulário mais ou menos rico, coisas que a gente adquire lendo. Por essas e outras eu digo que a educação para a poesia é para todos, mas poesia não é para qualquer um. Boa semana a todos.











 
 
 
 
 
 
 

 

.: Participe :.

 
 

 
 

 
   
   
   
 
   
 
   
 
 
                   

 

 
                   
Comente o texto aqui!
                   
                   

:: Mais sobre...

:: Legenda de Quem é sua Marília? – reflexões sobre o amor em soneto de Bocage

Pesquise em http://pt.wikipedia.org

                   
                   

Dicas de compras no Submarino, clique abaixo para comprar:
* Livros de Carlos Heitor Cony *

                   
Arquivo
                   
| Equipe | Parceiros | Privacidade | Publicidade | Fale Conosco |
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação,
eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do Resenhando.

Direitos Reservados a Mary Ellen F. S. M.