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Como ser e fazer do outro um palhaço?
Por:
Helder Bentes
Em março de 2008
Ao invés de ficar decorando características do simbolismo, pense no
seguinte: Quem conhece poesia romântica e funções da linguagem, conhecerá
também a poesia simbolista. Esta difere da romântica apenas pelo
predomínio da função poética da linguagem. Em poemas românticos, a função
poética coexiste com a emotiva e até com a referencial, em alguns versos.
Na poesia simbolista, não há nada de referencial e, se nela a linguagem
também se articula para exprimir emoção, o faz por meio de uma linguagem
extremamente poética e simbólica.
Para entender melhor isso, basta pensar no que disse Santo Agostinho a
respeito do signo: "Um signo é uma coisa que, além da espécie ingerida pelos
sentidos, faz vir ao pensamento, por si mesma, qualquer outra coisa".
Para Jung, símbolo é "um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser
familiar na vida diária, embora possua conotações especiais além do seu
significado evidente e convencional. Implica alguma coisa vaga, oculta ou
desconhecida para nós".
Na poesia simbolista, portanto, mais do que no modernismo e mais do que nos
estilos de época anteriores, a poesia vale como signo:
Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.
Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta…
Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d'aço…
E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente
ri! Coração, tristíssimo palhaço.
Antes de prosseguirmos com a análise do soneto, você deve estar curioso(a)
para saber o que significam clown, estuoso e gavroche, palavras estranhas
para nós.
Clown é uma palavra inglesa e significa palhaço. Estuoso é ardente ou
febril. Gavroche foi um personagem criado pelo célebre Victor Hugo, no
romance Os Miseráveis. Hoje em dia, na Europa, o nome "gavroche" é usado
para designar travessura ou molecagem.
Nesse soneto temos um exemplo de como uma imagem conhecida – a do palhaço,
no caso – ganha uma conotação que ultrapassa a idéia comum de fonte da
alegria. O riso do palhaço, no soneto de Cruz e Sousa, é paradoxalmente o
símbolo da tristeza. O palhaço aparece como símbolo do eu lírico
atormentado, cujo desengonço é símbolo da ironia, da dor, de tormenta
(ausência de paz), do nervosismo, da ansiedade, da agonia, enfim, de tudo o
que, na nossa mente condicionada, é o oposto do motivo para rir.
Já dizia Rita Lee, em canção gravada por Maria Rita, 'Nem toda feiticeira é
corcunda, nem toda brasileira é bunda' (canção Pagu). Em versão de Braguinha
para a canção Smile de Charlie Chaplin, Djavan aconselha-nos a
nos aproveitarmos da conotação primária de um sorriso, quando nosso estado
de espírito ultrapassa as convenções do riso e, assim, 'ao notar que tu
sorris, todo mundo irá supor que és feliz'. No simbolismo literário é assim.
Nem tudo é o que parece. Supor é a palavra-chave. E o que nós temos a ver
com isso?
É bem mais feliz aquele cuja inteligência e criatividade fazem-no dar
conotações simbólicas àquilo que parece, mas não é. Por exemplo, você
flagrou seu(sua) namorado(a) no maior chamego com uma ex-. Vai fazer cena de
ciúme? Que nada!
Se você questionar o chameguinho, muito provavelmente
ouvirá o argumento de que aquilo não tem nada a ver. Então se transforme num
poema simbolista de carne e osso e os faça supor o que você quiser. É melhor
do que lhes dar as ferramentas para lhe destruírem, com o que houver por
trás da sua dor.
Os exemplos são vários, de situações em que a vida nos obriga a comportar-se
como o palhaço de Cruz e Sousa, mas a lição é a mesma. A cada 'bis' destas
situações de 'agonia lenta', 'retesar os músculos em piruetas d´aço'
significa ser simbólico. Quem sabe interpretar símbolos, sabe também
criá-los, na hora certa, do jeito certo e com ferramentas aparentemente
incertas.
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