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Navegando na amante segundo Carlos Heitor Cony
Por: Helder Bentes

Em março de 2008




No mês de aniversário do carioca Carlos Heitor Cony (14 de março) refiro-me à Carta de navegação de um caso que acaba, publicada no jornal "Folha de São Paulo", em 11 de outubro de 2002. O autor incorpora um eu lírico feminino e "navega" por um caso de amor, na posição de uma mulher que se tornara amante de um homem casado.

Entre as divagações peculiares do ser apaixonado, estão propostas reflexivas acerca da validade ou não desse tipo de envolvimento, no universo relacional legitimamente constituído e regido por valores morais que não poucas vezes se sobrepõem à "felicidade no amor".

A Carta é toda escrita em 1ª pessoa e dirigida a uma 2ª pessoa (o homem, no caso). O leitor fica na posição de espectador e juiz do casal e, como o interlocutor da mulher é um ser passivo na "navegação", recai sobre a mulher o papel de réu do leitor, representante da sociedade, que quase sempre crucifica as "destruidoras de lares". As características da "amante": Na carta de Cony, ela deve ser entendida como sujeito do amor e não com a conotação pejorativa que a sociedade lhe atribui.

As amantes sofrem por escolha, pois, se elas sabem ser o cara casado, a dinâmica influente da sociedade, do casamento, da família; se sabem como essas instâncias são protegidas pelo Estado, pelas religiões, pelo senso comum, pelos próprios envolvidos na relação extraordinária e, mesmo assim, investem suas energias afetivas nessa relação, devem estar preparadas para tudo.

Inclusive para ouvirem, como a personagem de Cony, a negação da boca do cara, na frente de sua rival (Mas houve novamente um sábado em que quis você. Joguei errado outra vez e atrapalhei o seu programa. Finquei o pé, fiz malcriação, chorei. Ela chegou. Perguntou o que estava havendo. Você disse tudo quando respondeu: "Nada").

As amantes geralmente são movidas unicamente pelo desejo, sem levarem em consideração o caráter do homem, projetam-lhe ideais, alimentam falsas expectativas, orientadas por fantasias, num processo neurótico de fuga de si mesmas.

No caso da personagem de Cony, o objeto de seu amor é um canalha que parece não ter um pingo de respeito pelo sentimento dos outros. Quem se envolve com uma criatura assim, só pode ficar à margem da relação.

As "outras", as rivais sempre lhe aparecem como um fantasma (E agora não vejo mais sua mulher nas ruas, mas essa moça que é tão mais jovem que você, tão da minha idade. Vejo-a em todas as esquinas. Via-a dentro do seu carro, em frente ao mar).

É uma tortura psicológica que consiste em esperar o inesperável, movida por alucinações, negações da realidade, cegueira emocional, perda da razão (Na minha alucinação, nem reparei que você estava com outra moça / O investimento novo que você havia escolhido e que eu não percebera / Nem mil anos de análise poderão me curar daquele impacto).

As amantes geralmente são mulheres de baixa auto-estima, de amor próprio frágil a ponto de necessitarem dividir um homem com outra mulher, acreditando que essa "partilha" é temporária, até que consigam "tomar o marido de outra". Nem param pra pensar que, se o cara foi capaz de trair a mulher com quem se casara, muito provavelmente o será com TODAS as que cruzarem seu caminho.

Amantes tendem a crer nas mentiras desses caras, a ceder às chantagens emocionais e a se iludirem com as máscaras de nobreza de que eles se revestem para justificar suas safadezas (Depois você viajou, me escreveu uma carta quando fazia o percurso Havana-Praga, descreveu o avião, a noite sobre o oceano e falou que me amava – acho que foi a única vez que você teve a coragem de admitir que também me amava. No seu regresso, nos trancamos em Teresópolis, quatro dias e quatro noites de chuva, nunca ninguém foi de ninguém como você foi meu. Eu estava salva / Um dia, encontrei-o com sua mulher na rua. Uma mulher enganada, mas segura / Mas no dia seguinte você abriu o jogo. Confessando que se apaixonara por outra, estava agindo decentemente).

Ela sacrifica sua relação com o pai e o resto da família, vai morar sozinha, desqualifica suas relações de amizade, aceita um papel terciário na vida do homem que ama, concorda em ser mantida por ele, alegra-se com isso, contenta-se com a posição de amante, concorda em dividi-lo não apenas com uma, mas com outras duas mulheres. Tudo isso para ser reduzida a "nada" bem na frente da esposa do cara.

Depois dessa leitura, às mulheres e aos homens restará a advertência para jamais embarcarem nessa canoa furada. É sempre melhor ser sozinho do que submeter-se a situações constrangedoras como à da personagem da "Carta de navegação de um caso que acaba", mas acaba com quem o vive.

INDICAÇÃO DE LEITURA: A Morte e a Vida, de Carlos Heitor Cony
O romance A Morte e a Vida, de Carlos Heitor Cony, trata de um dos temas polêmicos de nosso tempo: a eutanásia. Enquanto engavetam-se no Congresso Nacional projetos de lei que pretendem legitimar "avanços" em nossa sociedade, a Literatura, através da arte de escritores como Cony, propõe que se compreenda o homem no contexto de nosso tempo.
 
Caso não saiba o que é eutanásia ou não tem uma opinião formada sobre o assunto, a leitura deste romance é fundamental. Eutanásia consiste em sacrificar um doente incurável, sem amparo legal, a fim de lhe abreviar a dor ou o sofrimento.

A Morte e a Vida apresenta personagens angustiados cujas relações sociais estão deterioradas pelas veredas de seus dilemas. Induz-nos a refletir sobre a realidade da morte e da vida, a entender a morte e a vida como estados metafísicos e não meramente antagônicos, do ponto de vista da encarnação.

Citando a orelha do livro, "Seus desfechos (de Cony) nos dão a certeza de que a literatura é usuária única das propriedades que Ítalo Calvino destaca: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência".














































 
 
 
 
 
 
 

 

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