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Na poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen
Por: Helder Bentes

Em abril de 2008



Em 1919 nasceu, na cidade do Porto, em Portugal, uma menina que se tornaria uma das maiores referências de poesia: Sophia de Mello Breyner Andresen, uma mulher cuja obra de poeta e contista é considerada, por sua situação no tempo, como modernista.

A verdade é que os poemas de Sophia são densos e cheios de peculiaridades tão atemporais, tão universais, tão duráveis, que não dá para o leitor atento aceitar uma redução a rótulos dos "-ismos" literários da crítica. Só lendo a poesia de Sophia para compreendermos sua relevância nos dias de hoje:


Porque os outros se mascaram, mas tu não.
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo, mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam, mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis, mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam, mas tu não.


Neste poema, Sophia de Mello Breyner Andresen apresenta um eu lírico que admira alguém cuja adversidade em relação aos outros é sua maior virtude. Tendo em vista que os outros usam máscaras e usam as virtudes para comprar o que não tem perdão, ou seja, usam características positivas ou qualidades para subjugar, coagir, induzir, manipular ou pressionar o outro.

Os outros têm medo, são metáforas do túmulo caiado de que fala Jesus no Evangelho, isto é, limpinhos e brancos por fora, mas sujos e podres por dentro. Os outros se calam, no sentido de omitem-se, compram e se vendem e fazem coisas para lucrar. Os outros têm a habilidade que, no Capitalismo, é virtude. Eles procuram sempre se refugiar, proteger-se, já que, neste sistema, a segurança tornou-se o sonho de consumo de todo mundo.

E paralela a tudo isso – representada pela recorrência da oração adversativa elíptica "mas tu não" – está a 2ª pessoa lírica, a quem se destina o poema. Seria interessante se lêssemos um poema como este, sem especular sobre quem seria a tal pessoa em quem Sophia pensava ao escrevê-lo, mas fantasiarmos que este poema foi feito para nós. O mundo seria tão melhor se fôssemos o "tu" a que Sophia se refere ao repetir "mas tu não"!

Poemas Escolhidos, de Sophia de Mello Breyner Andresen: Uma antologia que traz a essência da longa trajetória de uma das principais poetas portuguesas Sophia de Mello Breyner Andresen foi contemplada pelo prêmio Camões, o mais importante em literatura de língua portuguesa, e pelo espanhol Reina Sofia de Poesia.



















 

 
 
 
 
 

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