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Receita
para fazer novela
Por:
Eduardo Caetano
Em agosto de 2004
Para quem não sabe, existem alguns ingredientes essenciais para se fazer uma
boa novela. É verdade. Toda novela necessita basicamente de um casal
apaixonado (a mocinha e o herói), um (a) grande vilão (ã) e um final feliz.
Junte neste caldeirão meses a fio de aventuras e suspense que desencadeiam
em emoções fortes a cada capítulo. É muito importante que a novela resgate
ainda a importância da família. Novela que se preze precisa de uma grande
família unida. Tempere todos os ingredientes com humor. Cassiano Gabus
Mendes dizia que para garantir o sucesso era necessário misturar humor no
folhetim.
Era assim, e somente assim, que se fazia novela quando o gênero começava a
se desenvolver e conquistar os corações do povo brasileiro. Foram esses os
elementos utilizados por Janeth Clair em Irmãos Coragem (1970) e é esta
mesma simplicidade utilizada por João Emanuel Carneiro em Da Cor do Pecado,
que está chegando a sua reta final mantendo os melhores índices de audiência
nos últimos dez anos. Desde Quatro por Quatro (1994) que uma novela das sete
não cai tão bem no paladar do público.
O
diferencial de Da Cor do Pecado é que, além da protagonista negra, a trama
do jovem autor não inventa um novo estilo como de autores experientes
(Carlos Lombardi, Antonio Calmon, Sílvio de Abreu e tantos outros). Pelo
contrário, utiliza uma receita velha para nos conquistar. Nada que tenha a
cara do costumeiro corre-corre da novela das sete. A história nos humanizou
com a relação avô e neto, nos diverte com a família Sardinha, mexe com
nossos nervos quando com as maldades de Tony e Bárbara e nos faz torcer pelo
final feliz de Paco e Preta. Da Cor do Pecado é o arroz com feijão bem
feitinho que não conseguimos dispensar.
Mas, apesar de gostarmos de arroz com feijão, também não dispensamos pratos
mais apurados com outros ingredientes. Comecemos pelo final. O final tem que
ser feliz. Final triste só é aceito no cinema. Pegue clássicos como ...E o
vento levou e Casa Blanca ou contemporâneos como Ghost, Forrest Gump ou
Titanic. Sem contar os sensacionais e tristes finais do cinema nacional como
em Orfeu e Central do Brasil.
Outro elemento presente nos folhetins é a saga das heroínas. As mulheres
deixaram de ser frágeis para se tornarem guerreiras. A última transição do
horário nobre da Globo trocou a saga de duas Marias: Clara Diniz
(Celebridade) e do Carmo (Senhora do Destino), ambas perseguidas por
terríveis vilãs louras: Laura e Nazaré.
Sem contar a migração feita pelos protagonistas. Eugênio Bucci, jornalista e
crítico de TV, destaca que em tramas urbanas os heróis vêm do interior ou do
sertão para enfrentar a insensibilidade da selva de pedra, como Preta em Da
Cor do Pecado ou Maria do Carmo em Senhora.... Já em novelas rurais eles
voltam da cidade para o campo com novos conceitos, visando mudar o falso
moralismo conservador que domina e explora o lugarejo. Veja exemplos como
Roque Santeiro (1985), Tieta (1989), Fera Ferida (1993) e A Indomada (1997).
Há exemplos ainda de histórias totalmente urbanas em que as heroínas vieram
do subúrbio para a alta sociedade, como Maria Clara Diniz e Fernando que
saíram do Andaraí, ou Maria do Carmo de Rainha da Sucata (1990), que saiu
das latarias para a paulicéia quatrocentona e decadente. Mas toda regra tem
exceção e Manoel Carlos é uma delas. Suas Helenas não migraram de lugar
nenhum. Embora sejam batalhadoras e bem-sucedidas, elas parecem ter nascido
e se criado no Leblon.
Há também o universo dos vilões (repleto de ricos ou alpinistas sociais),
que disputam dinheiro e poder. Já o herói ou heroína não tem o dever de ser
pobre ou rico. O importante é que tenha vencido com seu próprio trabalho e
mantenha vínculos afetivos com o núcleo dos pobres bem-humorados e gente
boa. Aliás, são com esses núcleos que grande parte do público se identifica.
Lembram-se do Andaraí de Celebridade (2003), o Pari de Torre de Babel
(1998), o sítio do Petruchio em O Cravo e a Rosa (2000), a Ilha do
Governador em Quatro por Quatro (1994), a Vila Havana em As Filhas da Mãe
(2001), a Mooca de A Próxima Vítima (1995), São Cristóvão em O Clone (2001),
o Maranhão em Da Cor do Pecado e a Vila São Miguel em Senhora do Destino?
Ah,
sem contar os segredos. São os mistérios que dão aquele sabor apimentado nos
grandes folhetins. E os mistérios se apresentam nas mais diversas facetas,
seja a identidade do (a) assassino (a), a paternidade ou maternidade de
alguém, uma carta reveladora que provoca uma reviravolta na trama ou, até,
quem são os próximos que serão assassinados. A Próxima Vítima parou o país
porque mudou o foco do suspense.
E, para finalizar, o (a) protagonista precisa ter um vínculo forte que
justifique, facilite ou complique sua ação na trama. Em Celebridade o que
prendia Fernando à Beatriz era o filho Inácio, o que justamente dificultava
seu relacionamento com Maria Clara. E o que separou da Musa do Verão foi o
fato dela ter negado que ele era o pai de Nina. No final da trama, os
vínculos foram trocados. Fernando não tinha um filho com Beatriz, mas sim
com Maria Clara, o que o enlaçou novamente à produtora musical. Na atual
novela das oito essa questão do vínculo também será explorada, já que
Lindalva/Isabel na verdade é filha da heroína Maria do Carmo e não da vilã
Nazaré.
O mesmo acontece em Da Cor do Pecado. Afonso não era verdadeiramente avô de
Otávio, mas sim de Raí. Dessa forma, o vínculo de Paco com Bárbara cai por
terra. O verdadeiro é o dele com Preta, mãe de seu filho e verdadeiro amor
de sua vida. É, além de tudo, a novela das sete vai nos permitir saborear um
tradicional final feliz. |
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