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As facetas pseudo-heteronímicas de Clarice
Lispector
Por:
Helder Bentes
Em agosto de 2008
Os falsos heterônimos de uma escritora que faz o leitor
refletir. Saiba mais de Clarice Lispector!
Antes de tudo, pseud(o)- é um prefixo grego que significa 'falso' e
heterônimo é uma identidade imaginária a que se atribui a autoria de uma
obra. Este autor inventado tem características literárias diferentes das do
escritor que o criou. Na poesia portuguesa, Fernando Pessoa foi o maior
criador de heterônimos. Ele criou Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de
Campos, entre outros.
Na prosa jornalística brasileira, a escritora ucraniana Clarice Lispector
também teve facetas heteronímicas, embora muito diferentes do fenômeno que
se verifica na criação literária de Fernando Pessoa, razão pela qual me
refiro à pseudo-heteronímia de Clarice, isto é, a falsos heterônimos da
escritora. Quando falo de heteronímia na obra de Clarice, tomo o termo em
sentido amplo, considerando literatura também em sentido amplo.
Hoje heterônimo, no senso comum, também significa o autor que publica sob o
nome verdadeiro de outra pessoa, como o fez Clarice ao assinar uma coluna
feminina com o nome da atriz e modelo Ilka Soares, no jornal 'Diário da
Noite', de abril de 1960 a março de 1961.
Como heterônimo também cabe à publicação sob o nome de outra pessoa, não
poucas vezes confunde-se heterônimo com pseudônimo. O pseudônimo é apenas um
nome falso. O heterônimo é uma identidade ficcional.
No romance
A Hora da Estrela, Clarice apresenta-se sob o alter-ego do
narrador Rodrigo S.M. Mas também não se deve confundir o tipo de narrador
com heterônimo.
Aliás, esta sacada da autora dá a esta obra o mérito de ser utilizada como
recurso didático em aulas de Literatura sobre criação literária. Pois, ao
ler A Hora da Estrela, é possível acompanharmos a construção da narrativa
e o modo pelo qual o narrar contribui para a formação da identidade do
narrador, que não é a mesma do autor. Quando muito, é parte dela.
Mas isso é
um ninho de formiga nos estudos literários. Não é assunto para internet.
O que importa é que o complexo narrativo que alicerça o conflito de Macabéa
sempre impõe ao leitor reflexões a respeito do substrato da vida humana.
Impossível sair menos humano dessa leitura!
A aventura como colunista começou quando Clarice aceitou um convite de Rubem
Braga para assinar a coluna 'Entre mulheres', no tablóide 'Comício' que,
inclusive, foi um dos precursores da imprensa alternativa. Depois ela também
aceitou convite de Alberto Dines para ser ghost-writer de Ilka Soares
na coluna Só para mulheres. Originalmente publicada no 'Diário da noite',
esta coluna funcionava como uma espécie de diário de Ilka Soares, de quem
Clarice tornara-se amiga.
Apesar de a proposta das colunas femininas tenderem a limitar a criação
literária de Clarice, ela mostra que um literato é sempre um literato,
independentemente do suporte utilizado. Além disso, os futuros textos
ficcionais de Clarice aparecem nas colunas femininas como o fogo que existe
potencialmente num fósforo ainda não aceso, embora àquela altura ela já
estivesse consagrada como escritora literária.
Sob o pseudônimo Teresa Quadros, ela usa a metáfora de uma chaleira no fogo
para propor que se esfrie a cabeça ao exercer o poder de decisão, sugere o
uso de uma tesoura para cortar o prefixo da palavra 'preocupada', antes que
suas leitoras acostumem-se com a preocupação. Também propõe
intertextualidades com outros cânones da literatura feminina, tais como
Virginia Wolf e Katherine Mansfield.
Com o pseudônimo Helen Palmer, Clarice também se revela escritora de
literatura quando usa a discrição como metáfora da sedução. Pois, nos
conselhos de moda e beleza de Helen Palmer, a discrição aparece como o
pré-requisito para seduzir um homem. Conforme se pode ler na coluna datada
de 04 de maio de 1960, indiscrição não combina com elegância e inteligência.
Quem quer conhecer mais de perto a obra de Clarice Lispector, não pode
deixar de apreciar o que ela produziu sob os pseudo-heterônimos das colunas
femininas.
Indicação de leitura: Só Para
Mulheres, de Clarice Lispector
Outra faceta do potencial literário de Clarice. Ela colaborou com alguns
periódicos impressos nas décadas de 50 e 60, assinando colunas femininas
cujos textos foram reunidos pela Prof ª. Drª. Aparecida Maria Nunes (USP) e
publicados este ano no livro Só para mulheres. Esta antologia traz
conselhos, receitas e segredos a respeito do cotidiano feminino, assinados
sob os pseudônimos de Tereza Quadros, Helen Palmer e também como ghost-writer da atriz e modelo Ilka Soares, originalmente publicados nos
periódicos 'Comício', 'Correio da Manhã' e 'Diário da Noite'. Apesar do
título, o livro é também leitura obrigatória para homens que queiram
conhecer um pouco mais o universo feminino ou para historiadores que
pretendam dedicar-se à evolução das teorias feministas.
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