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Em
cartaz Gil VicentePor: Mary Ellen Farias dos Santos Em maio de 2009 O teatro ácido de Gil Vicente. Saiba mais deste dramaturgo português! É interessante analisar os provérbios e ditos populares no texto de Gil Vicente, Farsa de Inês Pereira, peça escrita pelo dramaturgo para libertar-se da acusação de plágio das obras do teatro espanhol de Juan Del Encina. Para tanto, recebeu dos que o acusavam de plágio a tarefa de escrever uma peça tendo como tema o ditado popular: “Mais vale asno que me leve que cavalo que me derrube” (que quer dizer: “Mais vale o certo que o incerto”). Os versos “Mais quero eu quem me adore/ que quem faça com que chore” parodiam o mote a partir do qual Gil Vicente compôs a farsa: “Mais vale asno que me leve que cavalo que me derrube”. Em meio a provérbios e ditados populares que brincam e dizem que bom é aquilo que se tem e não o que se deseja, encontramos: No chão de Couce, Quem não puder andar, choute; (que quer dizer: “Mais vale pouco do que nada”); Cada louco com sua teima (que quer dizer: “Cada um com sua mania”); Quem bem tem e mal escolhe, por mal que lhe venha, não s´anoje (que quer dizer: “Quem não sabe escolher bem, não pode se lamentar do mal que lhe acontece”). Nota-se que as variações do provérbio, o qual a peça foi baseada, traduzem a moral da farsa. Logo, a temática da peça está grandemente ligada à realidade vivida pela sociedade portuguesa da época do dramaturgo. Impregnada de críticas, a obra retrata a corrupção da sociedade de seu tempo, guiada por interesses materiais e sem sinceridade nos propósitos. Um exemplo está no trecho em que entra Lianor Vaz, a alcoviteira, com uma carta de Pero Marques e esconjura-se por ter sido atacada por um clérigo. Momento irônico que ressalta a corrupção do clero. “Diz que havia de saber se era eu fêmea se macho. (...) - Irmã, eu t'assolverei c'o breviario de Braga. (...) Quando vio revolta a voda foi e esfarrapou-me toda o cabeção da camisa”. No entanto, o desejo da jovem Inês em casar para ter ascensão social e fugir da vida de camponesa por estar cansada de trabalhar, retratam a realidade portuguesa. Um exemplo é quando Inês Pereira, dentro de casa, sozinha e revoltada (sente-se escrava até dos objetos), finge estar costurando, e diz: “Renego deste lavrar e do primeiro que o usou! Ó diabo que o eu dou, Que tão mao é d'aturar! (...) E assi hei-de estar cativa em poder de desfiados? - costura em travesseiros Está
colocada aí a problemática do casamento. Acontecimento raro para a época, em
Portugal, pois os homens seguiam pelos mares nunca dantes navegados. No
entanto, Inês precisa fugir da prisão e o pensamento da moça permanece
fixado no casamento: “Ou seja sapo ou sapinho, ou marido ou maridinho tenha o que houver mister, este é o certo caminho; Após ser cortejada por Pero Marques, o qual nada lhe agradava, embora fosse perfeito como marido na visão da mãe da moça, este acaba sendo descartado por Inês, justamente pelo fato da protagonista ter o pensamento em direção oposta ao dito: “Mais vale pouco do que nada”. Enquanto Inês não se agrada do pretendente pelos absurdos que diz, a mãe, representante da sabedoria popular, pés no chão, insiste: “Queres casar a prazer no tempo d'agora, Inês? Antes casa em que te pês, que não é tempo d'escolher”. O casamento acontece com Brás da Mata, um escudeiro, que se mostra exatamente do jeito que Inês deseja. Após o casamento, ela descobre a outra face do marido: um tirano que a proibia de tudo, até de ir à janela, pois estas foram pregadas por Brás para que Inês não olhasse para a rua. Trancada na própria casa, proibida de cantar e tendo de ser uma mulher obediente e discreta, Inês passa a ter como tema de vida o provérbio “Quem não sabe escolher bem, não pode se lamentar do mal que lhe acontece”. Sem a máscara do Escudeiro, Inês sabe o peso de sua escolha. A vida de casada nada tem, para ela, das alegrias e levezas com que tanto sonhara. Contudo, ela reencontra “a liberdade e a felicidade” quando Brás se torna cavaleiro, é chamado para a guerra e morre. Com mais experiência, a viúva, casa-se com seu antigo pretendente, Pero Marques e tem um casamento cheio de traições, por parte de Inês junto a um ermitão, identificado como seu antigo apaixonado. Com tanta ingenuidade Pero mostra certa “vocação” para ser traído. Aproveitando de tal fraqueza do marido, Inês marca um encontro com o ermitão e, ela, exige que Pero a leve, este a obedece e a coloca montada nas costas. Desta forma, consuma-se o tema da peça: “Mais vale asno que me leve que cavalo que me derrube”. De fato, esta é a história do aprendizado de Inês Pereira, que ao passar pela experiência conjugal (tão desejada), aprende uma grande lição: o mundo é dos espertos. |
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